segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Consolo




tenho fome amor
dia todo passei no lodo
a pensar em ti

estou triste está calor
tenho sede de ti
não consigo dormir

passo dia em frente
do espelho sorridente
olhando para o meu rosto

recordo a chama da tua beleza
principesca
naquela novela
em que fui o monstro

ai meu pesadelo
desvelado

tenho pena
da minha mágoa

sorri
só uma gota d'água

o meu peito já vergou
as lágrimas todas
e o poço está seco

só mais um milagre
para cair a chuva

dentro deste vinagre



Adão Quadé

sábado, fevereiro 04, 2006

Kerensa Minguado




An'...kabas
te gos ta lebadu
si kontra agustu
ta lalu kaminhu

kamaradia
kada dia
na mainadu

kasamenti

mingua
na kalma di binhu

blanha
ku ta labraduba
simentadu

tchon bida risu kan
fonti seka
palmera
ku ta furaduba binhu seba

kerensa
nin si puku
pa topoti santadu

28.08.03Atrium Saldanha
Ndongle Akudeta

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

31-01-99:Crónicas de uma hecatambe adiada III





Sinais de paz?
Todos esperamos que sim, mas ninguém já consegue acreditar. Esta guerra começa a ser como aquela nossa brincadeira de criança: pôde-bem. Sabem que no final, no momento da padjigada, depois do Nhenku-Nhenku e do Tchitchori tchori iaia Ndé Kandému Ntalas (Ndulé-Ndulé), no memento da padjigada ninguém quer ficar com o mentu do outro. O grande problema desta guerra agora é Kim ku na fika ku mentu, porque depois canta-se o kurus-karas karessu. Ora designa-se assim kim ku pirdi. Meu Deus, consideremos que ninguém perdeu para não perdermos mais do que ja perdemos todos. Quem ganharia? O povo, senão: perderemos a única coisa que temos e que nos junta: a Guiné.
Eram cinco horas da manhã, mais uma vez levei o batalhão de familiares para o nosso abrigo. Vamos no quarto dia de guerra e, o dia de ontem foi particularmente violento. Mas, Alinu-li na mentu ntidu ku balas surua Bandé trás, Kiliquir dianti Nô firma suma nô matchundadi na defesa di sigridu di barraka.
Ali élis li é na Ndjata ka na retourner
É ka kunsi nin Kankuran nin Ussai Plek
Kada kim kada Ndjol kada Ndjai arnegu di élis
Ma é ka tissi nin fuka nin bissap
Arma na kosta pa montia Republika rebelde
Ala é na bai fidjus di Ndjai Té kuma Ndjai Djú
Korda di lantcha na rabada / Kanela seku / Kabelu
kuma bosta di kabra
Arnegu di Djop ia Ussalanka

Lutu di Brá I ka tchiga fidi Lifanti
Binhalé um Djamba na Polon bu Fogantal na Puntu Sibi
Montiaduris nhominca salta na Djiba I djunki na Nghala

Alinu li ku elis suma tap ku bangadje
Ronku I ku elis / Ma badju di Brá I djambadon
Guer lambés na toka sikó Djamba na badja kafé kinti

Alinu li Na kassabi di P'Nghana
Kada familia I um stera di tchur
Kada surua I um fora di nós ku na padjiga dur na Pátria

Ali é nega far kussa di bai kuma Bissau mela tchut
Arma na pontada / Lunetas suma di Bubu Na Tchut
Ali élis li é na sussa lensolis di Pátria
É na sibi riba ku bás / Suma djintis ku bin nan Ten Tchon
Alinu li ku returnez na totis
Albés ku fomi albés ku sedi / Pontada kumpridu ma é nega bai
Ali élis li é na kunfundi M'Pandja ku Psak
É na buska Repúblika pa montia
Alinu li nô firma tcham suma nô matchundadi Pó di Sangui
Certeza na kabeça / Amanhã suma farol dianti
Esperança na pitu/Nô n'dianta ku nó terra
pabia di amanhá djitu ten na glória di Brá

Sinais de paz?
Talvez agora!
São cerca das três da tarde. Os tiros são menos frequentes. Estarão os soldados almoçando até a esta hora ou a amplitude da carnificina conseguiu finalmente humanizar os beligerantes? De repente a rádio nacional que durante todos estes dias propagava que só haveria trevas quando uma das partes se rendesse, anuncia a chegada de uma delegação togolesa para negociar um cessar-fogo. O que é que se passa? Perguntei-me a mim mesmo. Há poucos tinha falado com alguns diplomatas da troika facilitante que desde ontem tentam em vão obter uma audiência com o Presidente. De tempos em tempos ainda soam disparos de canhão nas zonas de Bandim e de Pessube/Bissak.
A notícia de uma trégua que poderia transformar-se num cessar fogo é anunciada pela rádio nacional, que desde logo acusa a Junta de não estar a respeitar esse acordo de cavalheiro, à espera de um acordo definitivo a ser negociado com as partes pela delegação do Togo. As crianças saíram logo dos bunkers e encheram as ruas de alegria, jogando à bola ou livrando-se em, pequenos grupos, a grandes "passadas". Falam do Estin muri, da casa do Fulano arrebentado pela bomba, Beltrano cobardolas que não ousava piar mesmo dentro do bunker e do sicrano "mancebu" que mesmo sob as bombas tinha tempo de andar aos engates.
Ivone não acredita que a vinda dos togoleses possa trazer rapidamente a paz. "Mbé, manera ku é na ameaça Nghutru sin, N ka fia". Mas dentro dela mesma, mais do que todas as outras ela almejava uma paz imediata. Mais uma vez o seu marido Ntoni está ausente quando Bissau é arrebatada pela guerra. Não vão as pessoas pensar que Ntoni sabe das coisas dos militares, porque desde que deixou a tropa colonial e arranjou um taxi, depois um bar e depois um camião e, depois, uma ponta e uma bela casa nos lados de poilão de Brá, ele não frequenta gente de arma. É que Ntoni, filho de Albino é um homem atarefado. Como se diz, quase um homem de negócio. O negócio de Ntoni não é arma, mas coisas da terra, do debaixo da terra, como madioca, batata, cajú, manga, americanos, ANAG, Canchungo, Paris, etc… Ele nunca está em casa. Passa mais tempo nas ondas da rádio. A mulher se queixa, mas "Ntoni ka ta menda", por isso, quando começa a guerra e "ka ta mati".
"Disgustu di Katchur I kontentamenti di lubu". Tino não sai muito estes dias. Pior, ele, herói de todas as guerras, famoso pelo desprezo dos abrigos, agora cola com a mulher no bunker da casa do Só Rachid. É que as bombas da Junta chovem agora caindo por tudo quanto é sítio. Ontem caiu na Farmedi, ao pé da Fortaleza de Amura, e matou imediatamente seis pessoas, entre as quais a filha do falecido Comandante da Marinha, Filipe, que morreu juntamente com Feliciano Gomes no início do mês de Agosto. A irmã mais velha de Paulo Silva morreu nesse mesmo sítio e na mesma altura, vítima de um fulminante ataque cardíaco. Chegam notícias de que a casa do João Blacken foi atingida duas vezes. O palácio também teria sido várias vezes alvejado, dizia alguém no bunker. E, parece que as bombas estão sendo dirigidas - diz alguém citando serviços de segurança. Passaram com Jonatas no carro - retorquiu um companheiro. Qual Jonatas? O irmão do You, Helder Proênça. Mas Jonatas está doente de cabeça! Doente nem sabe se há bombas e nem onde caem. Vieram buscar o Pumpo. Mbé, o que é que se passa ? Parece que os homens fardados que o vieram buscar disseram que por causa dele as bombas não caíam no Chão de Papel. Mas Pumpu di Tio Inácio de Alvarenga não faz feitiços - respondeu um vizinho dele, neto de Gã da Silva. Alguém gritou: "Ah si na tempu ba di Tia Orélia Ndjai, nada di és ka ta sedu. Vamos avisar a Liga." Aí vão eles correndo para a casa do Valdo enquanto que, numa Toyota branca, Pumpo, ladeado por dois capacetes de ferro no banco traseiro, viajava para sítio incerto. "Anta kau fenhi" - murmuraram os presentes incrédulos, pelo que viam e pelo que ouviam na rádio. "Anta kau fenhi".
E a paz ainda não tinha chegado às nossas casas. Pelo contrário, chegavam notícias de prisões de gente acusada de estar a dirigir tiros da Junta. Soavam incessantemente estrondos por tudo quanto é canto da Capital.
"É stá dja na Chapa. É na ientra é dinoti". Cada um "cuava as suas nobas" que mais não eram do que desejos pessoais de ver o conflito um desfecho rápido. Nos bunkers como nas rádios muitos são os que preconizam a solução final. Estes certamente não foram ao hospital ver cadáveres irreconhecíveis, sem cabeça, sem membros, cortados ao meio. Para ver crianças feridas e que perderam todos os membros da sua família. Esses apologistas não viram Ntumbo endoidecido pelos estrondos a dançar na estrada ao ritmo das balas. Não. Não viram nada. Uns defendem o que têm, enquanto que os outros lutam por aquilo que esperam alcançar. Por isso a claque irracional reclama uma guerra fratricida até a vitória final.
Finalmente, pela voz do Ministro de Iadema, os guineenses tomam conhecimento do novo acordo de cessar fogo, lido nas ondas da Rádio Nacional. A Junta mantém-se silenciosa. As suas emissões estão quase completamente cobertas pela Rádio Nacional. O texto não diz nada senão cessar-fogo e facilitação do desdobramento imediato das tropas da Ecomog. Cadé o problema das tropas estrangeiras? O que terá acontecido com a Junta? Quando é que vão reagir? Terá acontecido alguma coisa ao Zamora ou a algum destacado dirigente do movimento? Porque é que ele não fala desde Domingo? Deus é grande!
Esperemos que este acordo não venha a significar caminho aberto à perseguição interna, nomeadamente dos amigos da Junta da rua dez, como se diz na Rádio Nacional. E a noite vai caindo com o silêncio da Junta, com a prisão do Pumpo, mas com uma paz anunciada. As bombas continuam, mas cada vez mais ao longe, nas zonas de Plaque, de Bissak e de Enterramento.
Bissau, 3 de Fevereiro de 1999.
H M

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Andanças



deixai-me vaguear
por estes enredos
caminho
da crua unidade

se um dia
a minha língua
for condenada
ao abismo
das palavras...

escavai os meus passos
ressuscitai os traços
são pegadas
fac-similadas
das matrimoniais
andanças
ancestrais

eternidade!

Adão Quadé
2002/02/10

quinta-feira, janeiro 26, 2006

terça-feira, janeiro 24, 2006

África esquizofrénica


Na batente da sua porta
espreito uma mãe que já não importa
que significado tem a vida
pela inconstância vivida

esta chama-se África
e é uma situação esquizofrénica
que a incita a esquecer-se dela
quando todos os olhos voltam para ela

na aurora, juntamente com os raios solares
penetro no seu «konko»[1]
todo o sofrimento traduzido em lágrimas é pouco
só nota-se desespero nos olhares

é ali dentro que tudo vejo mas não refilo
vejo ali criança que já não é filho
acredito que enquanto vivemos tudo podemos ver
vejo ali morto que não é cadáver

pode parecer mistério
mas sem túmulos é ali o cemitério
e, até voz já não há p’ra gritos
no fundo vive-se de palpites

Manuel Pedro pereira, Jr.
(DJOMBODIKILIN)
Moscovo, 30/08/2003

#

[1] «Konko» anêxo a uma casa, uma especie de niquel

sexta-feira, janeiro 20, 2006

TEMOS GUINÉ NO CORAÇÃO !!!




«ÌÎËÎÄÛÅ ËÞÄÈ ÂÛÐÀÆÀÞÒ
ÑÂÎÈ ×ÓÂÑÒÂÀ»

UMA ANTOLOGIA POÉTICA DE
ESTUDANTES GUINEENSES EM MOSCOVO



Organizada e compilada por:

Ansumane Sanha

Moscovo, Janeiro de 2003

____

NOTA DO AUTOR*

A presente brochura, propositadamente intituladas por “ÌÎËÎÄÛÅ ËÞÄÈ ÂÛÐÀÆÀÞÒ ÑÂÎÈ ×ÓÂÑÒÂÀ” (Jovens expressam seus sentimentos [sobre Cabral e sobre a Guiné]), contêm poesias de jovens estudantes guineenses em Moscovo, Rússia. O recital dessas poesias enquadrou-se nas actividades comemorativas de mais um aniversário do 24 de Setembro – data da Independência Nacional - (organizadas pela Associação de Estudantes da Guiné-Bissau na Federado da Russa – AEGB – em Setembro de 2002). O evento teve como objectivo de, por um lado, descobrir talentos no campo literário e, por outro lado, incentivar a criatividade literária dos nossos jovens poetas.
A recital de poesias foi feita em forma de concurso, para o qual foi constituído um júri, por mim presidido, e que ainda integrou Paulo Silva e contou com a especial e honrosa participação do Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Guiné-Bissau na Federação Russa, Dr. Rogério Helbert.

O conteúdo das poesias, cuja analise deixo a cargo do leitor, o sentimento nostálgico do pais que nos viu nascer, evidenciado nos poemas, a articulação dos temas com a realidade africana (e sobretudo guineense), a forma expressiva, viva e desprendida como foram recitados os poemas, constituem alguns dos aspectos que acho dignos de serem salientados.

Pessoalmente, sinto-me feliz por poder cumprir uma promessa que fiz a mim mesmo: compilar e organizar os poemas numa brochura, dando, assim, a minha modesta contribuição para a difusão e engrandecimento da Literatura e da Cultura Guineenses.

*O autor
Ansumane Sanha

Ansumane Sanha e Estudante da Faculdade de Economia. Experiências no campo literário: foi vencedor de dois prémios literários “José Carlos Schwartz”, promovidos, em 1991 e 1994, pelo Centro de Estudos da Embaixada do Brasil, em Bissau. Frequentou o curso de Literaturas Brasileira e Portuguesa, respectivamente no Centro de Estudos Brasileiros e
no Centro Cultural Português.


POESIAS


*****

GUINÉ E CABO VERDE

Guiné e cabo verde
faces da mesma moeda
filhos do mesmo PAI
gerados do mesmo ventre
orientados pela mesma seta
quer no tarrafal, quer no “djiu de galinha”
a procura dos atalhos da liberdade

A Guiné e Cabo verde
nasceram do sol, suor, verde e mar
do desespero e da esperança do nosso povo mártir
do sangue do Ramos, da Silla, da Ntungue e do Cabral
que coloriu a nossa bandeira (ku boé pega partu)

A luta de libertação nacional terminou
depois de muitos “paranta ku tchebur”
a Guiné e Cabo verde libertaram-se
mas ainda não se libertam
o Tite, o Komo e a Guiledje,
o Fogo, o Sto. Antão, o mercado “somnadur di Bande”
a liberdade só terá significado quando o M’bana Kabra,
o Duarte Kambalala deixarem de “coicoir”
nos becos e guetos das nossas tabancas


por:Manuel Pedro Pereira Junior(DJOMBODIKILIN)
Estudante do Instituto Hoteleiro e Turismo (Turisìo).

****************
GEBA, O RIO TESTEMUNHO

Antes de se calarem as metralhadoras assassinas
já choram …
choravam viúvas e órfãos
antes mesmo de pararem todos os corações massacrados
já se entendia que a liberdade tem um preço…
Tudo começou no Pindjiguiti
O rio Geba a tudo assistiu
E testemunho …
O rio …
O rio que corre com os vultos dos que a sua margem tombaram
O rio …
Rebolando-se no chago ensanguentado da nossa razão
Debruçadas sobre seus respectivos cadáveres
Lacrimavam, lacrimavam
As gaivotas que ali passaram iam divulgando a dor
Os malfeitores ainda lá estavam
Com os olhos atentados que ainda respiravam
Os mais idosos
Somente esses
Murmuravam sua mágoa
Mágoa que aparentava-se infinita
Mas o Geba estava lá
O Geba é testemunha
Corpos ensanguentados flutuavam
Ensanguentaram o nosso Geba com sangue irmão!
Mas afinal era o início
O início do fim.
Obrigado nossos primeiros combatentes!
Combatentes de Pindjiguiti
Combatentes que mereceram o merecimento de Cabral!
E que jamais haja botas estrangeiras
Espezinhando nosso sentimento, nossa cultura …
nossa razão…

Luis Artur Seabra(TUI)
Estudante da Faculdade de Direito (Direito)


***********


ACORDA CABRAL!

A nossa identidade está
a perecer
olhei e vi a cidade
escancarada num silencio
moribundo
os monumentos a pó da terra
a bandeira, nossa verdadeira identidade,
já não brilha, já é escura como o amanhecer
antes da aurora

Acorda Cabral!
ou é grito da águia
na aurora mesquinha?
ou é grito do leão faminto
ao raiar da lua?

ou será o grito da criança
ao colo da mãe que foge
inocentemente da fúria
da morte destinada
ou o que é?
ou é que, nesta anarquia hipócrita,
que te fará acordar?

Acorda cabral!
acorda-te hoje mesmo
que amanha é outra centelha da vida

despertai com os lírios
dos campos
com as ondas do mar que
sobem
se não a nossa identidade
perecera, e seremos
como umas dessas
alimárias selváticas
que não se conhecem identidade
de cada uma
seremos como uma dessas aves diurnas que sulcam
debandada mente a brisa da noite

Acorda cabral!
e a nos também!
cada um de enxada nas mãos
e calças bem cingidas
partiremos em busca de novos
horizontes p’ra lavrar
cultivar e regar continuamente
as memórias dos mártires guineenses

por:Alberto Denca
Estudante da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
(Administração Pública)

*********
EI, AMILCAR REVOLUCIONÁRIO!

Ouviste as vozes sufocantes do Povo da Guine
combatentes infatigáveis
sempre inspirados na liberdade
quem é que não queria a liberdade?
todos queriam, mas não podiam falar …

nas tuas mãos estavam depositadas
as esperanças do povo guineense

com a tua inteligência conseguiste mostrar á africa
e ao mundo que a força unida do povo guineense
oprimidos até então triunfara

pegando em catanas, machados, paus
combatemos os colonialistas
e com a razão ao nosso lado vencemos
proclamando a independência do povo guineense
tornando-o mais um país livre em áfrica

Obrigado Cabral

Ledy Alfredo da Costa
Estudante da Faculdade das Ciências Sociais e Humanas
(Administração Pública)
************


TIRAM-ME O ALGEMA DO CORAÇÃO


As luzes dos céus incandesceram
As noites das nuvens cinzentas
fizeram expandir a magoa
que abalou o coração guineense
o coração cabo-verdiano
o coração africano

Neste dia, trovejou na minha terra
relampejou nas ilhas de cabo-verde
a africa inundou
Chuvas …
chuvas que como estas
jamais cairam no meu chão
jamais cairam sobre a minha bandeira
chuvas …
chuvas que caiam dos olhos
corriam toda a face
e desaguavam no peito
peito de dor
peito da mamã áfrica

isto era um fogo-frio
que d’um lado me queimava
do outro, me consolava

o físico dos homens
desapareceu
mas as suas obras
estavam vivas

Abel Djassy, os camaradas te chamaram
Cabral, eu te chamei
te chamei para dizer que o caminho
que com as tuas mãos construíste para mim
já o encontrei
e que para amanhecer
é questão de consenso
porque debaixo do poilão
já não há escuridão

com os olhos no tempo
já atravessamos o mar de sangue negro
isto foi o repousar dos combatentes
isto foi tudo o que os homens levaram consigo
isto foi tudo o que nos restou


tiram-me a algema do coração
pois, tudo o que pedi
foi liberdade
tudo o que pedi
foi a independência
tudo o que humildemente
pedi ao meu patrão
foi o despisar das suas botas criminosas
do meu chão

as colheitas que com muito
suor e carinho
plantariam os homens
foram todas assassinadas
mas, nas bembas haviam
ainda sementes
a minha terra, esta sim
foi aterrorizada
mas de mim não tiraram nada.

Tengna Nafafe
Estudante da Faculdade de Filologia (Jornalismo)

*********

INDIPENDENSIA



ampus
500 anus pasa
no donas, no papes, no mames
lebadu e rastadu e trokadu
ku tabaku, panu, kana, sapatu
ku utrus kusas ku n ca pudi tchoma

sol tudu noti ku i noti
na mansi so ki i ta resta nel
i bim ten un fidju di guine
ku tchoma cambarada cabral
nnao i camarada cabral
ku punta: kin ku misti independensia ?
tudu misti ma ninguin ka pudi papia
ku kolmo na mon
korenti na garganti
tchikoti na mon na kosta
ai nha ermons
i limarias ou pekaduris ?

cabral djunta si ermons
i nterga elis mantchadu, tarsadu ku manduku
bo kutila, si mermeri
bo mandukia

cabral muri, ma si forsa ka muri
Onze anus pasa bas di sol, serenu ku tchuba
Independensia faladu, bandera ialsadu, viva pupadu
Antigus ku si kombatentis entra prasa
Prasa djumbuli
Nangnanghidus – nangnanghi
Tartaridus – tartari
I katen nanunke – ku fadi simbaba
Nsonda – nsondadu

Na es brasu un palma, prua vira kontra mare
Ki kussa ki bisti di panu burmedju, ku kampainha
na rabada, si fiansa pa i tchiga matu

n ripindi keku manda, i masan n ka pontarial
i kuspin n ka bunfal
i kacan n ka ialal
Pa indipendensia, Cabral na seu, Dimingu Ramus na seu
Pansau Na Isna na seu, Titina Sila na seu, Dom Septimio A. Ferrazzeta

Na djunda djunda de Djanke Wale ku Agusti timba na Polon di Bra
Watcha – Katcheu

Ibraima Sane
Estudante da Faculdade de Engenharia
(Construcao Civil)

*************



KURI KURIDU!
PUNTA PUNTADU!
RAPA TCHIGA TOTIS!

Turpesa rastadu pa sintanda omi garandi
Ku sintidu susu, omi rasa banana, toma bandera di fama
N’na kosta nha kara i tistimunhu di nhara sikidu

Kuma na kil noiti si gritu obidu di fundu di matu tena tabanka
Moransa kinti wit suma kuntchur di tia Pampa
Homi garandi muri

Hoje e dia de luto no povoado
E um dia de confusão e de desespero
Hoje há luto e silencio no Kitafine

Veio o M’bana
Com o seu barcafon de ódio
E foi odiado

Fixou no povo um olhar frio
A ver se alguém tremia
Mas ninguém tremeu
Todas as forcas do povo contornavam ódio
O povo odiou M’bana

Depois ele fez um sorriso amargo
Como que uma provocação,
Odiado

Com um malefício e pronunciou com desespero:
Cabral muri, nha djintis !!!

No dia ku motika
Kal ku no sorti?

Perguntou o Arfam
De que morte?
Respondeu o M’bana:
A morte que vem subitamente
A morte que vem inesperadamente
A morte que vem a correr
Que vem de passagem

Pubis punta, mas kal ku no sorti ?
M’bunde fala elis:
Bo djunda turpesa bo sinta
No pensa na no Guine !



Oliver Biquer Oliver Biquer
Estudante da Faculdade de Engenharia
(Construcao Civil)

**********



FINDOU A NOITE E RAIOU A MADRUGADA

Quanto mais brilhavam as lâminas
cantando as minhas orelhas,
mais pairavam as deduinas
nos meus túneis dançavam as abelhas
inquietas, insonolentas e turbulentas
melancólicas, mórbidas e nostálgicas

curtindo aos ritmos dos tambores
ao toque das mandíbulas
em semblantes de peixes
içados ao hino monótono dos pescadores.

os papagaios e as borboletas
flutuando no berço das fogueiras
no patamar do senhor das terras,
vendo pirilampos a horizontes manhosos
frente de um mar de venenos
inconcebível atravessar!
sendo ventos revoltantes
aguas refutantes
desertos refugiantes
contraindo oásis mortíferos,
dos andares escaldantes
nas sombras dos dias prósperos,
divertindo-se ao espelho da lua
numa mata desnuda

no céu da rua
já amanheceu a bússola
transformando o relógio magnético
do teor profético
são horas de partir para bem longe
pois nesta pátria sagrada
findou a noite e raiou a madrugada
onde se correm mares contagiantes

Allende Samori Fernandes(Alsafequa – o Profeta )
Estudante da Faculdade das Ciencias Sociais e Humanas
(Sociologia)

sexta-feira, janeiro 13, 2006

O olhar triste de um líder



a brisa pindjiguitiana
bate suavemente no meu busto
sem corpo para mais sofrer
atrás dos meus óculos - um sonhador
debaixo da minha sumbia - um pensador[1]

dizia eu:
«sou um simples africano a cumprir o seu papel na sua própria terra»
«os que sabem devem ensinar aos que não sabem»
«as crianças são as flores da nossa luta a razão principal do nosso combate»

afinal ninguém se sente guineense
não há quem ensinar aos outros
e que as crianças «kolontchidus»[2]
são as flores murchas de sede
e, que combatia não porque tinha razão

passados já quase trinta anos
e ainda os olhos do meu retrato
espia o prato do povo
feito de dores e dissabores
que p’ra meus continuadores
e uma legítima lógica
discriminada da minha linha ideológica

o meu olhar é triste
o meu olhar as «bideras» do cais[3]
que «kutikuti» com as barrigas das crianças[4]
por causa do pão nosso que não chega a todos
«afadi tchabi» que não abre a toda as portas[5]

Manuel Pedro pereira, Jr.
(DJOMBODIKILIN)
Moscovo, 30/08/2003

#

[1] sumbia - espécie de barrete
[2] kolontchidus - palavra crioula que significa famintos
[3] bideras- vendedoras
[4] kutikuti- palavra crioula para “engenhar”,desenrascar-se
[5] afadi tchabi-como se fôsse a chave

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Djunda-djunda


na djunda-djunda
di sol ku lungha
n ka na mati la

si pintchadur di lenha
ka tem
anta nha boka ka sta la

ma suma bantaba
i na nha tapada
anta n djumna tchon

21.06.01
N.A.

Kabantada
























ora ku mundu na bida kaba
ora ku tchon na bai iagu
oki djine na bai si nteru
n ka na mati la
n ka na mati laba dufuntu
n ka na mati kamba kaxon
n ka na mati karga djongagu

dia ku mundu na kaba
n na bai djuti suma djurto
na fiu di kabelu branku
di polon bedjoti
ku foga na baril di aos
na djitu di libra sarampu
na moransa sin erderu

n ba ta djamu ku un kuku di udju
di n'ulidera di garasa di fadiga
tchur di noiba nobu ku ka saradu
(padas di ratadju ku ka tchiga
mundu di soda pa feti-feti)
sin panu di pinti na fundu mala
paqui si mortadja fadjaduba dja
aonti na toka-tchur di amanha

20.03.2001
Viseu?
Ndongle Akudeta

Bejusa

té pa bedjusa na kasa
mindjor na mortu
sabura dja ta bim lakati
kosta ta gasta na katri
i sim o i ka sin satu?

frintanba ku kabra-di-matu
ku mediba tiu lubu na nobresa
na lebsimenti ta bin dal tapona
mangu birdi ku sutau na totona
bas di pe di sombra ku bu ta diskansa
dinti ta falsiau pa disinganal

tchiu tempu dja pardos
kil ku gustus-ba anta malgos
n' ka regua nha flur
ai... kal koldadi di dur!


B.leza.09.12.01
Ndongle Akudeta

Nha Nomi


feito
palimpsesto
para a reescrita
sem rascunhos

sou a tela
em que se esboça
todo um vasto teorema
sobre a arte

acima de tudo
sou saliente
como uma moldura

e de repente
com punhos e vela
sem protesto
constroem novelas
a encenar-se no marte

2003.29.29
Adão Quadé

oiço o teu palpitar

oiço o teu palpitar
a baloiçar na corda bamba
de uma promessa falhada

afogando o tempo no contratempo
o fio de prumo converge os pontos
em linhas curvas do desencontro

a luz do teu transpirar quente
revela a tortura de um gemido obscuro
rangendo as grades em mármores
feito de lama ebanal do teu peito sem jeito

água do copo entornado
nunca mata a sede ao corpo
mas o cântaro que vai a fonte
um dia até lá se encontra o amparo

A.Quade
30.08.2003

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Nha fala

À Lídia à beira do rio

*
Nha fala i un dus pasu
atlantiku na diapason
kuimbra neni bu tuada
na un kurpu kebra-kebradu

na un maranha di iran segu
bu sirbi tas na barkafon
di nha poetandadi

bustu di kabral na iari-iari
kuma tchon ka rakunsil

suma kobra ku na ramenda
djunki turpesa di mar
bu latchi bu tadju di palmera padida

malila bagana forsa
pubis taranta didia uan
bu serpentasku
teju ku na lagua
beju di maron di djiba

kur di bu djindjirba pe di ankol
katabentu di ermankono
na prantcha di sakor

nha sunhu i kil un son son
ma falan kuma
liti ku basa ka ta djunki
kabas di djamakosa

n sikidu na Pindjiguiti
n na panga foli
pa maskotia bu suris
na kalkanhada di pilikanu
pa bua sai nkanta mundu

ku bu garganti fonghol
na palku nha sunhu
alma-beafada
reinu di ndoli

Ndongle Akudeta
23.03.05 - 18:00