sábado, fevereiro 18, 2006

canto à mulher amada


sinto a amrgura de te perder nesta vontade maldita
meu coração desfalece enquanto a noite te canta
tu que eras em mim a flor
porque te vais deixando sangrar o amor?

partiste deixando a melancolia
a ternura consome o coração
a dor mistura~se com a nostalgia

sobre estas lágrimas paradas tecestes a peneumbra
voastes como um pássaro ferido lenado em ti a aurora
falsa esperança esta
considerada sem meta

Helder Proença

Rosa Negra



rosa
chamam-te rosa minha preta formosa
e na tua negrura
teus dentes se mostram sorrindo

teu corpo baloiça caminhas dançando
minha preta formosa lasciva e ridente
vais cheia de vida vais cheia de esperanças
em teu corpo correndo a seiva da vida
tuas carnes gritando
e teus lábios sorrindo

mas tenho a tua sorte na vida que vives
na vida que tenos
amanhaterás filhos minha preta formosa
e varizes nas pernas e dores no corpo
minha preta formosa já não serás rosa
serás uma negra sem vida e sofrente
serás uma negra
e eu temo a tua sorte

minha preta formosa não temo a tua sorte
que a vida que vives não tarda findar
minha preta formosa amnhã terás filhos
mas também amanhã
amanhã terás vida


Amilcar Cabral

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Vera


(Ainda embevecido)

Soubera
ver-te os dentes
para entre dedos
ter a textura das nuvens
que te fizeram mulher

Pudera
escutar a eufonia
talvez a chave
desta infinda gnose
achasse entre a voz e o verbo


Aprouvera
discernir-te lhana
desta intrínseca deidade
para estabilizar a aspiração
na vontade divina

Bissau, 09.03.1996
Félix Sigá





Vera


Fez manhã em mim
o esplendor súbito
dos olhos e do sorriso

Despoletaste esta paixão
que atiçada pelo riso
cresce para toda a década

Qual magma ingénito
por arrazoado registo
- não vá ignizar-me pois

Tal libelo
revoga amplexos no sonho
para levitar – só a pena

Miscigenada em longevo acervo
eivada de sóbria meiguice
reificas o élan como a cercear

Sonsa em teus ser e estar
és trampolim de ascensão
para o implicado no esoterismo

Ciciar
que eu conheça tão excitante
jamais

Cristalizar
de ignota arte
mais ingénua mais vigorosa

Contrito em meia concussão
eternamente cativo do conspeito
de fluidos que me conspicuem



Félix Sigá
Bissau,28.Janeiro.1996

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Barca de papel (para ti)




Tu és o papel branco
Com que escrevo à caneta azul
Um barco à vela em pleno calor
Visto por um mergulhador
Assino: Sanuíra Juelsa Ferreira Costa
Pelicano perdido na encosta

Improviso uma linda letra para ti amor
com caracteres teatral e tépido e tímido mas tenro
letras dóceis e mansas como o teu calor
desta feita sinto-me invadido pelo teu desejo
e nesta nuvem sobre a neve fabrico o teu beijo

estou pálido como nunca a arrefecer
da frieza sombria da tua volúpia
que me conduz ao longo da caminhada matinal
acordo constipado com febre cor da melancolia

não sei se te amo como penso imaginando
e se tu de igual forma o abraças...
unamos os nossos sonhos construamos uma barca
que tal um cruzeiro ao mar fora planejarmos
sem lágrimas porque a vela estará acesa
nas linhas convencionais que o teu sonho abarca!

Adão Quadé
Bissau
08.Out.00 - Viseu 28.Maio.01(02:30)

Kerensa Prenhada




Dia ku bu setan
n na labau kurpu ku champanhe
n na bidnta bu biku nha kalis
pa n bibi bás di bu bridja
sabura ku Deus sukundi na bu alma

dia ku bu setan
manera ku n faima pa bu badjudesa
ora ku ora di kubamba tchiga
n na uagau gelu na bridja
n toka foli na bu pitu di noiba lifanti
pa n pudi n'unsiu suma kuku di mangu di faka prenhada

dia ku bu setan
mindjor bu ba ta roga djanan kunpu pilon ku po di sangui
pa bin neni pô ku fidi lifanti na Ntula
sibi kuma na Penghana kin ku kamba risku ka riba tras
sibi tambi kuma
na padjigada di baraka na Kadjila
djubi tras ka tem po

Huco Monteiro
Barela,kunfentu 1999/2000

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Recaída

(num bilhete de metro)


fracção
de um amor
consentido

miraflores
em chamas
holofotes
a focar
no fundo do abismo

repentino

o meu hino
composto
em dó e sol
transverte-se
em pedra e sal

o meu tórax escudo
em coiro
sintético

posto na chuva
se mirra qual conchas
e o miocárdio
se dilata em legiões

para defender o reino
gebado pelo som de um olhar
serpentino

no primeiro embate
senti qual quimera
uma luz redentora
a embevecer
a minha ostentação

a tua frescura
licor álcool destilado
a diluir
a minha resignação

a força
levada a forca

o homem
que é macho
só dá ao coração

do sofrer o tacho


26.05.0312:29
Adão Quadé

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Consolo




tenho fome amor
dia todo passei no lodo
a pensar em ti

estou triste está calor
tenho sede de ti
não consigo dormir

passo dia em frente
do espelho sorridente
olhando para o meu rosto

recordo a chama da tua beleza
principesca
naquela novela
em que fui o monstro

ai meu pesadelo
desvelado

tenho pena
da minha mágoa

sorri
só uma gota d'água

o meu peito já vergou
as lágrimas todas
e o poço está seco

só mais um milagre
para cair a chuva

dentro deste vinagre



Adão Quadé

sábado, fevereiro 04, 2006

Kerensa Minguado




An'...kabas
te gos ta lebadu
si kontra agustu
ta lalu kaminhu

kamaradia
kada dia
na mainadu

kasamenti

mingua
na kalma di binhu

blanha
ku ta labraduba
simentadu

tchon bida risu kan
fonti seka
palmera
ku ta furaduba binhu seba

kerensa
nin si puku
pa topoti santadu

28.08.03Atrium Saldanha
Ndongle Akudeta

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

31-01-99:Crónicas de uma hecatambe adiada III





Sinais de paz?
Todos esperamos que sim, mas ninguém já consegue acreditar. Esta guerra começa a ser como aquela nossa brincadeira de criança: pôde-bem. Sabem que no final, no momento da padjigada, depois do Nhenku-Nhenku e do Tchitchori tchori iaia Ndé Kandému Ntalas (Ndulé-Ndulé), no memento da padjigada ninguém quer ficar com o mentu do outro. O grande problema desta guerra agora é Kim ku na fika ku mentu, porque depois canta-se o kurus-karas karessu. Ora designa-se assim kim ku pirdi. Meu Deus, consideremos que ninguém perdeu para não perdermos mais do que ja perdemos todos. Quem ganharia? O povo, senão: perderemos a única coisa que temos e que nos junta: a Guiné.
Eram cinco horas da manhã, mais uma vez levei o batalhão de familiares para o nosso abrigo. Vamos no quarto dia de guerra e, o dia de ontem foi particularmente violento. Mas, Alinu-li na mentu ntidu ku balas surua Bandé trás, Kiliquir dianti Nô firma suma nô matchundadi na defesa di sigridu di barraka.
Ali élis li é na Ndjata ka na retourner
É ka kunsi nin Kankuran nin Ussai Plek
Kada kim kada Ndjol kada Ndjai arnegu di élis
Ma é ka tissi nin fuka nin bissap
Arma na kosta pa montia Republika rebelde
Ala é na bai fidjus di Ndjai Té kuma Ndjai Djú
Korda di lantcha na rabada / Kanela seku / Kabelu
kuma bosta di kabra
Arnegu di Djop ia Ussalanka

Lutu di Brá I ka tchiga fidi Lifanti
Binhalé um Djamba na Polon bu Fogantal na Puntu Sibi
Montiaduris nhominca salta na Djiba I djunki na Nghala

Alinu li ku elis suma tap ku bangadje
Ronku I ku elis / Ma badju di Brá I djambadon
Guer lambés na toka sikó Djamba na badja kafé kinti

Alinu li Na kassabi di P'Nghana
Kada familia I um stera di tchur
Kada surua I um fora di nós ku na padjiga dur na Pátria

Ali é nega far kussa di bai kuma Bissau mela tchut
Arma na pontada / Lunetas suma di Bubu Na Tchut
Ali élis li é na sussa lensolis di Pátria
É na sibi riba ku bás / Suma djintis ku bin nan Ten Tchon
Alinu li ku returnez na totis
Albés ku fomi albés ku sedi / Pontada kumpridu ma é nega bai
Ali élis li é na kunfundi M'Pandja ku Psak
É na buska Repúblika pa montia
Alinu li nô firma tcham suma nô matchundadi Pó di Sangui
Certeza na kabeça / Amanhã suma farol dianti
Esperança na pitu/Nô n'dianta ku nó terra
pabia di amanhá djitu ten na glória di Brá

Sinais de paz?
Talvez agora!
São cerca das três da tarde. Os tiros são menos frequentes. Estarão os soldados almoçando até a esta hora ou a amplitude da carnificina conseguiu finalmente humanizar os beligerantes? De repente a rádio nacional que durante todos estes dias propagava que só haveria trevas quando uma das partes se rendesse, anuncia a chegada de uma delegação togolesa para negociar um cessar-fogo. O que é que se passa? Perguntei-me a mim mesmo. Há poucos tinha falado com alguns diplomatas da troika facilitante que desde ontem tentam em vão obter uma audiência com o Presidente. De tempos em tempos ainda soam disparos de canhão nas zonas de Bandim e de Pessube/Bissak.
A notícia de uma trégua que poderia transformar-se num cessar fogo é anunciada pela rádio nacional, que desde logo acusa a Junta de não estar a respeitar esse acordo de cavalheiro, à espera de um acordo definitivo a ser negociado com as partes pela delegação do Togo. As crianças saíram logo dos bunkers e encheram as ruas de alegria, jogando à bola ou livrando-se em, pequenos grupos, a grandes "passadas". Falam do Estin muri, da casa do Fulano arrebentado pela bomba, Beltrano cobardolas que não ousava piar mesmo dentro do bunker e do sicrano "mancebu" que mesmo sob as bombas tinha tempo de andar aos engates.
Ivone não acredita que a vinda dos togoleses possa trazer rapidamente a paz. "Mbé, manera ku é na ameaça Nghutru sin, N ka fia". Mas dentro dela mesma, mais do que todas as outras ela almejava uma paz imediata. Mais uma vez o seu marido Ntoni está ausente quando Bissau é arrebatada pela guerra. Não vão as pessoas pensar que Ntoni sabe das coisas dos militares, porque desde que deixou a tropa colonial e arranjou um taxi, depois um bar e depois um camião e, depois, uma ponta e uma bela casa nos lados de poilão de Brá, ele não frequenta gente de arma. É que Ntoni, filho de Albino é um homem atarefado. Como se diz, quase um homem de negócio. O negócio de Ntoni não é arma, mas coisas da terra, do debaixo da terra, como madioca, batata, cajú, manga, americanos, ANAG, Canchungo, Paris, etc… Ele nunca está em casa. Passa mais tempo nas ondas da rádio. A mulher se queixa, mas "Ntoni ka ta menda", por isso, quando começa a guerra e "ka ta mati".
"Disgustu di Katchur I kontentamenti di lubu". Tino não sai muito estes dias. Pior, ele, herói de todas as guerras, famoso pelo desprezo dos abrigos, agora cola com a mulher no bunker da casa do Só Rachid. É que as bombas da Junta chovem agora caindo por tudo quanto é sítio. Ontem caiu na Farmedi, ao pé da Fortaleza de Amura, e matou imediatamente seis pessoas, entre as quais a filha do falecido Comandante da Marinha, Filipe, que morreu juntamente com Feliciano Gomes no início do mês de Agosto. A irmã mais velha de Paulo Silva morreu nesse mesmo sítio e na mesma altura, vítima de um fulminante ataque cardíaco. Chegam notícias de que a casa do João Blacken foi atingida duas vezes. O palácio também teria sido várias vezes alvejado, dizia alguém no bunker. E, parece que as bombas estão sendo dirigidas - diz alguém citando serviços de segurança. Passaram com Jonatas no carro - retorquiu um companheiro. Qual Jonatas? O irmão do You, Helder Proênça. Mas Jonatas está doente de cabeça! Doente nem sabe se há bombas e nem onde caem. Vieram buscar o Pumpo. Mbé, o que é que se passa ? Parece que os homens fardados que o vieram buscar disseram que por causa dele as bombas não caíam no Chão de Papel. Mas Pumpu di Tio Inácio de Alvarenga não faz feitiços - respondeu um vizinho dele, neto de Gã da Silva. Alguém gritou: "Ah si na tempu ba di Tia Orélia Ndjai, nada di és ka ta sedu. Vamos avisar a Liga." Aí vão eles correndo para a casa do Valdo enquanto que, numa Toyota branca, Pumpo, ladeado por dois capacetes de ferro no banco traseiro, viajava para sítio incerto. "Anta kau fenhi" - murmuraram os presentes incrédulos, pelo que viam e pelo que ouviam na rádio. "Anta kau fenhi".
E a paz ainda não tinha chegado às nossas casas. Pelo contrário, chegavam notícias de prisões de gente acusada de estar a dirigir tiros da Junta. Soavam incessantemente estrondos por tudo quanto é canto da Capital.
"É stá dja na Chapa. É na ientra é dinoti". Cada um "cuava as suas nobas" que mais não eram do que desejos pessoais de ver o conflito um desfecho rápido. Nos bunkers como nas rádios muitos são os que preconizam a solução final. Estes certamente não foram ao hospital ver cadáveres irreconhecíveis, sem cabeça, sem membros, cortados ao meio. Para ver crianças feridas e que perderam todos os membros da sua família. Esses apologistas não viram Ntumbo endoidecido pelos estrondos a dançar na estrada ao ritmo das balas. Não. Não viram nada. Uns defendem o que têm, enquanto que os outros lutam por aquilo que esperam alcançar. Por isso a claque irracional reclama uma guerra fratricida até a vitória final.
Finalmente, pela voz do Ministro de Iadema, os guineenses tomam conhecimento do novo acordo de cessar fogo, lido nas ondas da Rádio Nacional. A Junta mantém-se silenciosa. As suas emissões estão quase completamente cobertas pela Rádio Nacional. O texto não diz nada senão cessar-fogo e facilitação do desdobramento imediato das tropas da Ecomog. Cadé o problema das tropas estrangeiras? O que terá acontecido com a Junta? Quando é que vão reagir? Terá acontecido alguma coisa ao Zamora ou a algum destacado dirigente do movimento? Porque é que ele não fala desde Domingo? Deus é grande!
Esperemos que este acordo não venha a significar caminho aberto à perseguição interna, nomeadamente dos amigos da Junta da rua dez, como se diz na Rádio Nacional. E a noite vai caindo com o silêncio da Junta, com a prisão do Pumpo, mas com uma paz anunciada. As bombas continuam, mas cada vez mais ao longe, nas zonas de Plaque, de Bissak e de Enterramento.
Bissau, 3 de Fevereiro de 1999.
H M

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Si nô bim matil, mansin amanhã!


De manhã muito cedo as famílias põem-se de pé, acabam os preparativos para rapidamente entrarem nos abrigos de fortuna, comummente designados de bunquers no jargão de bissauzinho. Lá vamos todos, com lamergas nos olhos mal abertos, antes que bombas sem olhos façam perigar a vida de mais um ente querido nosso.

Mata-bicho e outras coisas fazem-se é nos abrigos. Neste momento faz frio em Bissau, o que torna ainda mais penoso o sacrifício matinal das pessoas, nomeadamente das crianças.
Mal as pessoas chegam aos abrigos, começam a soar os primeiros arrebentamentos e caem as primeiras bombas da morte. Aí vão mais bombas da katchusha para lá. Aqui morreram muitas pessoas e muitas casas ficaram danificadas. Morreram muitos senegaleses, novamente.
Mas também muitos civis, a maior parte dos quais eram jovens. Considerando a intensidade e a violência do fogo deste lado, julgo que muitas pessoas também morreram no outro lado da trincheira.

Certamente que perdemos muitos valorosos combatentes, apanhados pela surpresa dos ataques. Digo pela surpresa de ataques porque foi o que se depreende da entrevista de um membro da Junta capturada pelas forças leais a Nino Vieira. Ele - o combatente apanhado - estava a fazer as suas preces pela manhã cedo quando um grupo de assalto o capturou. Isto quer dizer que eles não esperavam um tal ataque.

O povo continua a viver como toupeira. Os jovens são mais descuidados, por isso morrem mais. As mulheres parecem mais inteligentes. Entre duas bombas, como em tempo normal, é ta pui kaleron, ou midi sal e ainda cuidam das crianças.

É a minha primeira guerra, mas nunca fui a um Bunker. Aproveito desta pausa profissional para acabar um livro sobre o mercado de Bandim. Mas, estou funcionando como um autêntico general civil. Tenho comigo os filhos das minhas irmãs Anabela e Samira e os do Rachide Saiegh. Ao mesmo tempo fazemos rondas no Bairro para evitar roubos, mas também para socorrer casas ou pessoas atingidas pelas bombas. A nossa presença é muito dissuasiva, mesmo em relação a tentativas de violação de direitos humanos. Desde que os confrontos recomeçaram encontramo-nos sempre na esquina da BBC com Fernando Gomes, Inácio Tavares e Valdomar. Ontem apareceu o Adalberto Rosa. Que futuro para a Guiné era o ponto central das discussões.

O que é que se passa com Zamora, nunca mais falou desde as primeiras horas de combate? Estou preocupado, sobretudo depois da entrevista do Fadul que falava de tiros surpreendentemente certeiros e de feridos. A Guiné não pode perder mais um valoroso quadro militar.
Mas os tiros que chegavam do outro lado eram igualmente certeiros. Fala-se que duas bombas teriam atingido o palácio presidencial. Não sei se é verdade. Parece também que muitas bombas caíram em certos aquartelamentos senegaleses improvisados como no INEP e no INDE. O Jornal Kankan disse que um T 52 foi destruído junto à Aldeia SOS. Outros dizem que um outro Tanque da Guiné Conakry teria sido destruído nas zonas de Luanda. Mas na rádio nacional alguns locutores continuam a dizer que as forças leais progrediam irreversivelmente no terreno, arrasando tudo no seu caminho. As nossas forças já tomaram Polon de Brá. Será verdade ou os nossos jornalistas já aprenderam a falar como os seus homólogos senegaleses que durante meses diziam a mesma coisa e que já se encontravam a caminho do Aeroporto? Mas como poderão estar a falar de Brá conquistado se a Rádio Voz d Junta Militar continua a emitir?

A feira de Cuntum recebeu vários obuses. O laboratório Nacional de Análises sito no Hospital 3 de Agosto ardeu completamente.
O meu primo Artur Silva chamou-me ao telefone recomendando muita cautela. De repente ouço um estrondo e a linha foi abaixo. Afinal tinha caído uma bomba na casa do seu colega Brandão Có, ex-Ministro da saúde.
Acabo de falar na rádio nacional onde dirigi um vibrante apelo a Nino Vieira e a Ansumane Mané, mas também ao meu primo Veríssimo Seabra para cessarem imediatamente as hostilidades, em nome dos interesses supremos do povo por quem eles todos reclamam lutar. É hediondo o que acontece na comunicação social. Os locutores perderam a faculdade de pensar. As mensagens veiculadas são ainda mais monstruosas do que as bombas. Nô na mata elis tudo. Os bandidos devem ser completamente aniquilados. Novamente, ouve-se empunhar a arma do inimigo, do anós ku bali e de elis ku ka bali. As mensagens são de tal forma acesas que por vezes perco a esperança numa eventual reconciliação nacional. O outro é um inimigo. É um animal feroz e altamente perigoso.
Hoje a luta é verdadeiramente mortal porque apesar de já se fazer muito tarde, os bombardeios continuam. Segundo a Rádio Nacional, as tropas fiéis estavam em Brá a caminho do Aeroporto. Segundo a Rádio Voz da Junta Militar, brevemente os combatentes estariam nas portas de Bandim. Quanto a mim, cada um está onde eu os tinha visto no dia 30 de Fevereiro, salvo aqueles que tombaram quer nas frentes quer nas cassadias de Bissau. Os claqueiros também continuam uns na Bancada de Pilum, outros nas redondezas de Chão de Papel. E o povo? Este continua sem paz, com fome e com horizontes muito perto do seu totis.
Si nô bim matil, mansin amanhã.

Bissau, 2 de Fevereiro de 1999

H.M.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Diário de um pacificador

31-01-99:Crónicas de uma hecatambe adiada


Quero com isso simplesmente aproveitar, deste diário de um guineense,o teor literarário, sem contudo deixar de lado o remorso e a dor profunda que este acontecimento marcou a todos os filhos e amigos da pátria que se sentiram lesados na pele. Podemos nos servir disso como matéria para reflexão sobre o quão hediondo é a delaceração do laço de fraternidade que une um povo, para com isso tecermos fortes nós para amararmos a forquilha da nação.
Djambadon reteira, desde já, os gestos das suas sentida desculpa às personalidades que se sentirem ofendidas por esta ingénua memória de sublinhar as marcas de uma cronologia vivenciada.
Na paz e na harmoniosa guinedade!
Ndongle Akudeta
...........*********..........
Crónica I

Paz e retirada imediata de tropas estrangeiras

Algumas bombas produzem o som estridente de um colossal armário metálico em movimento. Outras silvam como a sirene dos bombeiros. Há também outras que nem barulhos fazem. Mas todas são altamente mortais. A guerra voltou a Bissau com estes engenhos, talvez dos poucos que nós sabemos manejar com destreza.

As populações continuam a fugir em todas as direcções. As balas chovem igualmente em todas as direcções. O discurso dos fazedores de guerra orienta nos mesmos azimutes contraditórios.

Na rádio nacional aconselham os populares a não abandonarem as suas casas, que guardem a calma e que se abriguem como puderem. A rádio da Junta Militar repete sem cessar apelos ao abandono da cidade, considerando a capacidade de destruição das armas com que planejam ripostar aos ataques das forças leais.

Voltamos a ver feridos, mortos, casas e infra-estruturas destruídas. Estou coleccionando estilhaços daqui da minha calma rua 10. Há muito sofrimento. Há muitos feridos e mortos nos hospitais. Não há nem álcool, nem pensos. Não há nada. Só sofrimento e a odiosa linguagem das armas.

As partes acusam-se mutuamente de ter iniciado a guerra. Segundo a rádio nacional as tropas estrangeiras estariam a levar a melhor, aliás a aniquilar os nossos combatentes. Eles, os locutores, falam como se estivessem relatando um jogo de futebol: "é preciso destruir tudo, tudo mesmo. Já sabemos onde eles se encontram, esses bandidos, arrogantes da Junta Militar. Brigadeiro Humberto Gomes, por favor, utiliza todas armas para bombardear. Camarada João Bernardo Vieira, tu já não tens nada a ver com isto. Deixa os militares fazerem o seu trabalho. Lancem mais bombas. Lancem mesmo aquela bomba que o Nino nunca quis que usassem".

Não se ouve muito bem, ou quase nada a rádio Voz da Junta Militar, por causa das fortes interferências programadas pelo governo. Neste momento só se ouve a rádio nacional, com Bernabé Gomes, Chico Carruca e Carlos Nhafé. E a mensagem é a mesma de sempre.

Meu Deus, será que se trata de uma guerra entre nacionais? Não acredito. Há muitas vítimas. E todos só falam em continuar os bombardeamentos massivos.
Até que começou um programa animado pelo jornalista Mendonça. Fala brando … mensagem conciliadora e distância para com as partes em conflito. Era a República que falava. A nossa República da nossa pátria amada. Não aquela conspurcada por botas suruas.

Na sequência disso, um jovem médico, Plácido Cardoso lastimava a carnificina em que o país se envolveu e pede aos beligerantes para pararem imediatamente os combates. Depois seguiram-se outras vozes. Não tardaram porém a serem sufocadas por desígnios tenebrosos. Dr. Plácido estava a chorar. Caíram três bombas dentro do Hospital. Na enfermaria e no bloco operatório. Ele chora e ameaça refugiar-se também, já que as bombas começam a cair no seu local de trabalho.

Oh mundo. Oh Nações Unidas. Oh amigo da Guiné. Caro irmão... isto é uma hecatombe. Ajuda a Guiné-Bissau. Fala..., grita..., mobiliza a tua volta, aqueles que decidem mais do que nós, para por termo a essa absurda guerra.
Lembrei-me daquela cantiga: montiaduris ku ka kunsidu é lanta é na fuguia pubis.Ou então esta outra: Terra na tchora pena di si fidjus ku bindi sé kabeça. Fidjus mofinu ku ka sibi nada, ké ku na bim passa té pa sol na mansi.
Fazes falta, Zé. Tu tinhas que estar entre nós para consagrares em cantos esta epopeia negra.

Muitas vozes falam da presença de franceses: mercenários, legião estrangeira? Ninguém sabe. Mas desde que o padre falou, deixamos de ouvir o som ensurdecedor do seu estrondo.

A verdade é que enquanto os senegaleses não deixarem o nosso país não teremos paz. Que façam as suas mochilas e partam da nossa pátria martirizada. Que nos deixem resolver os nossos problemas, sozinhos.
Você que me lê, seja mais um "step flow" para a retransmissão mundial desta mensagem de paz.

Bissau,1 de Fevereiro de 1999
H M