sábado, setembro 23, 2006

Basora di midju



midju di ntudju
ki roson
pa amanha
- ma diparmanha

si arus di suta
bin ka ten na benten
fiansa-di-naris-di-gatu
i na bo - mbombo!

rasta basora
te na kosta
[1]
i sin k' n ta ngosta
mposta ka bu kuda

rafinka

na turpesa
bu disdangu

badjudesa

tudu mpustur
k' n na mpustur
i sin ki ta melan - katchur
[2]

n na sita kum'bo[3]
na kumbu di polon
diparmanha sedu
bas di serenu

n na mundu' farinha
pa simola
[4]
o pa papa pa panga

pa roson

o pa kubamba
si bu seta


N.A. - Kunfentu 2001
Lisboa-Viseu



[1] Uma metáfora e jogo de palavras e sentidos. "Rasta" tranças com longos cabelos postiços. Ou melhor, "larga kabelo te na kosta suma basora di midju"
[2]Ami ki katchur; nha katchurndadi. Asin ki ta melan na nha katchurndadi. Apesar de ser "katchur", o sujeito poético deseja uma "badjuda" reservada e modesta e que saiba "rafinka na turpesa", afastando-se de todas as manifestações e ambições que a "badjudesa" no seu meio proporciona.
[3]Ku bo (port. contigo)
[4] mundu [verbo inf. + 2ªp.s. u >(b)u]...comprimir com a mão. Confeccionar. Afarinhar-te; fazer-te farinha para dar em esmola. Simola aqui também é um verbo no infinitivo.


o sulco da paixão
elevado ao púlpito

do coração

desconcerta-se
apito da razão
arbitrária

torneio da loucura

almas
em procura
põe-se a preço de vaca

sono apunhalado
com uma faca


01.09.05
Adão Quadé


a sinceridade máxima
perece só quando
perdemos a noção
da integridade espiritual

deito-me sempre em horizontal
e acordo em transversa
lcom tronco
pendurado na lua

com a conivência de um fio
de cabelo
içado pela grua

em cada noite perco
um centímetro
no espaço

sonho a voar
com as asas
do calcanhar


01.09.05
Adão Quadé

terça-feira, setembro 19, 2006

Soneto



N misti ngabau na Kriol si bu na seta
Lingu mas romantis ki n kunsi
Paki bridju di bu rostu ...sol dal teta
Djamburera di nha noti ku na nansi

Pa n falau... n mistiu dja gos ka ten
N djurmenta ba dja kuma nunka mas
Ma kil bu udju ta dan gana di tcheben
Ku ta keman nha pitu di mampatas

Na djustu di firianta korson
N gasta sola di nha bikera
Uagan djelu na pitu ason

Ku tcheru suabi di bu suris
Pa arnoba fiansa di ka disispera
Sikidu bas di pe di sibi ku nha totis

Abril 2003
Ndongle Akudeta

segunda-feira, setembro 18, 2006

Tchom bu nganan


Dedicada a "Bambaran di Padidas"
Para a minha amiga Antu "udju di bilas"




n duspidu banda
n sindjidu basan
n maradu sindjidura
n lalu na kandja

bus na kabelu
djaldjali fadjan
kordon i midjidura
kikil-kilin di kaskabelu

n kortadu kasaku
na ris di ndibidi
kustumu iebadu
ratin badjudesa

tchon bu nganan
anel na dedu - sadjo...

mame bu iaran
paki n pustema
bu roban gustu

nha purbitu
nmerma
alin n nhani
dusgustu

31/08/00
Ndongle Akudeta

quarta-feira, setembro 13, 2006

Mutilação genital feminino



Mutilação genital feminina
Criado em 01 de Agosto 2002

Combater a excisão, mantendo o fanado
Sinin Mira Nassiquê luta contra a MGF na Guiné-Bissau


por: Sofia Branco


A Sinin Mira Nassiquê é uma organização não-governamental (ONG) guineense que se dedica ao combate contra a MGF. Para tal, criou um projecto que tenta convencer as pessoas de que a prática é um problema de saúde pública. Tendo em conta a importância da fertilidade e da maternidade em África, a associação preocupa-se em demonstrar as consequências graves que a MGF pode implicar para a saúde das mulheres e dos seus bebés.

Optando por não defender o fim do fanado, ritual ancestral completamente enraizado em determinadas comunidades, a Sinin Mira Nassiquê criou, ao contrário, um "fanado alternativo", que inclui todos os pormenores da cerimónia tradicional, excluindo a mutilação genital. As duas iniciativas realizadas até agora pela ONG não tiveram uma adesão muito forte, mas neste caso todos os números contam.
O primeiro "fanado alternativo", realizado em 1996, recebeu 55 meninas, que se juntaram para ouvir falar sobre o respeito pelos mais velhos, normas de conduta social, cuidados de higiene corporal e doenças. Ao mesmo tempo, aprenderam a bordar, a dançar e as regras do casamento. Tudo assuntos abordados num fanado tradicional. No ano passado, o "fanado alternativo" atraiu 33 meninas.
Durante as cerimónias, a Sinin Mira Nassiquê aproveita para falar dos direitos das crianças com as próprias crianças.Esta abordagem é considerada pela Sinin Mira Nassiquê como a única porta de entrada num universo ritualístico milenar, enraizado na comunidade e que é legado de mães para filhas. "Temos consciência que estamos a criar um grupo de exclusão", afirmou a portuguesa Paula da Costa, da Sinin Mira Nassiquê, quando esteve em Lisboa para apresentar o projecto e falar da MGF, a 15 de Maio passado.
Nessa altura, Paula da Costa e a guineense Augusta Mendonça, também da Sinin Mira Nassiquê, mostraram um vídeo da mutilação genital de uma criança (que aparentava ter apenas três ou quatro anos de idade) no Mali, antes de abordarem o tema. Nele, a menina era segurada à força pelas mãos de vários adultos, enquanto o excisador (no caso do Mali um homem) lhe cortava o clítoris, atirando os pedaços para o chão como se de desperdício se tratasse.
Nessa altura, as duas responsáveis da organização invocaram a possibilidade de a MGF ser praticada em Portugal, mas realçaram não ter provas concretas. Sobre o que acontece na barraca colocada no meio do mato ninguém fala, é "um segredo muito bem guardado", explicou à data Augusta Mendonça. Guineense e excisada aos dez anos de idade, a própria recusou-se a contar ao PUBLICO.PT o que lhe aconteceu no fanado, limitando-se a dizer "que é difícil falar sobre isso".Outra das preocupações da Sinin Mira Nassiquê passa pela reintegração das fanatecas. Isto porque, na Guiné, "as excisadoras são uma profissão como outra qualquer, com algo de sagrado e misterioso, com muita credibilidade junto da comunidade local", realça Paula da Costa. Muitas das fanatecas são parteiras ao mesmo tempo, "têm conhecimentos de medicina tradicional e muito poder dentro da comunidade".
Para lidar com esta situação, a organização está a tentar perceber os interesses das excisadoras, de forma a reconvertê-las social e economicamente, já que "elas recebem dinheiro por cabeça e géneros depois" de consumada a excisão.
Algumas fanatecas já vieram ter com a Sinin Mira Nassiquê para dizerem que não concordam com a prática e, actualmente, "dão a cara e a voz" contra a excisão. Até agora, a organização já recenseou 33 fanatecas.Formada em 1996 por um grupo de mulheres guineenses, na maioria muçulmanas, Sinin Mira Nassiquê quer dizer "olhar para a frente, olhar o futuro", explicou Paula da Costa que, há 20 anos, quando visitou a Guiné, se tornou numa das primeiras pessoas a manifestarem-se publicamente contra a excisão. A prática "mexeu" com ela e, duas décadas depois, voltou à Guiné "para fechar o círculo".
Nas suas estadias em países onde a MGF é praticada, nomeadamente na Guiné-Bissau e no Chade, o presidente da AMI, Fernando Nobre, apercebeu-se da "importância crucial" da prática no seio da comunidade. "Os rapazes e as raparigas que não passam pelo ritual são rejeitados. Existe uma noção de comunidade extremamente forte. Ser rejeitado é estar morto, fica-se desprotegido no seio da sociedade".
Na opinião de Fernando Nobre, rituais como o fanado guineense, "de origens imemoriais", foram "consubstanciados" pela ideia de um domínio do homem sobre a mulher. Para reverter estes fenómenos, é preciso "formação e educação, sensibilizar a juventude para os riscos dessas práticas para as mulheres". O presidente da AMI acredita que a MGF "acabará por desaparecer, mercê do protesto que as mulheres dos países onde ela é praticada, a pouco e pouco, ousarão fazer". O desaparecimento da prática resultará da "pressão das próprias mulheres" e não de "pressões externas". Na sua opinião, num "mundo cada vez mais homogeneizado e globalizante", a importância de afirmar a pertença a um determinado grupo tende a diluir-se.

picapau rafinka


turpesa i pa rafinka
pardos no disa tropesa

n guli dja dimás
pabia n ta kala ba
mansesa ntindidu pa tulesa

n findji tulu pa ka rema
ma riu fundu
maron ta rebela

galinha na sangra...
kaminhu lundju

Paulino Cabral
12. Setembro
Lisboa 2006

sábado, setembro 09, 2006

Para ti da tabanca


É para ti da tabancalivre e esbelta
de corpo e alma entregue à natureza
que eu canto este poema

Para ti mulher simples
de espírito puro sem ambição
corpo esbelto sem complexo
seios soltos ao longo do peito
pés marcados pelo sacrifício
braços torturados
mãos entregues ao ritmo das enxadas
que cantam a verdade no tempo das chuvas

Para ti, de olhos esperançosos no que semearás
na beleza com que pintarás
e florirás terra fecunda
é por respeitar a vida
que eu te canto
porque em ti tudo é vida!

Ytchyana, In Momentos Primeiros da Construção

quarta-feira, setembro 06, 2006

A Bolama


Cingido pela sombra
Do mangueiro
Esqueci o mundo

Sentei o corpo
na relva,

olhando o mar

Um pescador
deitou
a rede
três
canoas
cortaram
o horizonte

O sol esmorecia

como soprado
pela brisa
ouvi
um merengue
Adormeci…
(e eu que sentia o pesadelo
De viver)

Carlos Semedo, Poemas

Labutare


05:38 28-01-2003

perder sono para produzir
algo de rentável é salutar
levantar cedo para ganhar o dia
(é) correr de um lado para outro em espiral

preso entre sorrisos de semáforos da via
o meu vício não tem alimento nem acalento
gritar socorro à ambulância que passa
socorro sempre em coro só um soro
rouco um suco de coco guarda as moedas

já nem sequer o tempo se nos espera
um café cheio para alçar fé creio
mereço algo que estimule esta vaidade
padeço de epidemia da assiduidade
prostração da congestão temporal

despertador frustrado coma do sino
o galo agora só canta ao vespertino
sol a esfregar calcanhar no penedo
perdeu o fery-boat do ocaso

ziguezague precipitada da maré
inverno bateu recorde positivo
vai-se ao enterrar o poeta
sem caixão nem distintivo

Adão Quadé

1ª sinfonia negra



No descanso
não há descanso

Corpo inerte envolto em panos
Descanso eterno
Na casinhola do hospital

Braços que erguem funestos
Repousam sobre as cabeças
De lenços apertados

O desespero ordenha os olhos
Dos corpos que se dobram
Em trambolhão de homenagem

Na casinha onde os mortos descansam
Da Primeira Sinfonia Negra
Há um maestro sempre ausente – Morte

Ironia dó e aflição fatais
Inspiram o coro (in)convencional
Cada um invocando a própria mãe

Bombolons reclamam vida e recordam
Alma volúvel!
Entre partir e voltar

Maca improvisada ou caixão
No solo se abre a casinha definitiva
Animais e licores custeiam o funeral

Félix Sigá,
In Antologia Poética da Guiné-Bissau

Puti di mel


No garandi mbanka
na gamel di muni
ku faimadesa
pa leteti

sobra mininu ka ten
ma kuma ardansa kaba
nhulai gasidjantadu disna
na pe di kabelu

baguera k’ seba
na mermeri
ké di bu feretcha – flaka
ké di bu un bala – pupa
ké di bu kumbu – djugta
ké di bu bida – topoti
- n ka dau tabaku!

Ma
palabra
di mundu…
mudju ku falta
na kabas
di kuntangu

Ndongle Akudeta
11:55 26.06.06

segunda-feira, setembro 04, 2006