sexta-feira, janeiro 20, 2006

TEMOS GUINÉ NO CORAÇÃO !!!




«ÌÎËÎÄÛÅ ËÞÄÈ ÂÛÐÀÆÀÞÒ
ÑÂÎÈ ×ÓÂÑÒÂÀ»

UMA ANTOLOGIA POÉTICA DE
ESTUDANTES GUINEENSES EM MOSCOVO



Organizada e compilada por:

Ansumane Sanha

Moscovo, Janeiro de 2003

____

NOTA DO AUTOR*

A presente brochura, propositadamente intituladas por “ÌÎËÎÄÛÅ ËÞÄÈ ÂÛÐÀÆÀÞÒ ÑÂÎÈ ×ÓÂÑÒÂÀ” (Jovens expressam seus sentimentos [sobre Cabral e sobre a Guiné]), contêm poesias de jovens estudantes guineenses em Moscovo, Rússia. O recital dessas poesias enquadrou-se nas actividades comemorativas de mais um aniversário do 24 de Setembro – data da Independência Nacional - (organizadas pela Associação de Estudantes da Guiné-Bissau na Federado da Russa – AEGB – em Setembro de 2002). O evento teve como objectivo de, por um lado, descobrir talentos no campo literário e, por outro lado, incentivar a criatividade literária dos nossos jovens poetas.
A recital de poesias foi feita em forma de concurso, para o qual foi constituído um júri, por mim presidido, e que ainda integrou Paulo Silva e contou com a especial e honrosa participação do Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Guiné-Bissau na Federação Russa, Dr. Rogério Helbert.

O conteúdo das poesias, cuja analise deixo a cargo do leitor, o sentimento nostálgico do pais que nos viu nascer, evidenciado nos poemas, a articulação dos temas com a realidade africana (e sobretudo guineense), a forma expressiva, viva e desprendida como foram recitados os poemas, constituem alguns dos aspectos que acho dignos de serem salientados.

Pessoalmente, sinto-me feliz por poder cumprir uma promessa que fiz a mim mesmo: compilar e organizar os poemas numa brochura, dando, assim, a minha modesta contribuição para a difusão e engrandecimento da Literatura e da Cultura Guineenses.

*O autor
Ansumane Sanha

Ansumane Sanha e Estudante da Faculdade de Economia. Experiências no campo literário: foi vencedor de dois prémios literários “José Carlos Schwartz”, promovidos, em 1991 e 1994, pelo Centro de Estudos da Embaixada do Brasil, em Bissau. Frequentou o curso de Literaturas Brasileira e Portuguesa, respectivamente no Centro de Estudos Brasileiros e
no Centro Cultural Português.


POESIAS


*****

GUINÉ E CABO VERDE

Guiné e cabo verde
faces da mesma moeda
filhos do mesmo PAI
gerados do mesmo ventre
orientados pela mesma seta
quer no tarrafal, quer no “djiu de galinha”
a procura dos atalhos da liberdade

A Guiné e Cabo verde
nasceram do sol, suor, verde e mar
do desespero e da esperança do nosso povo mártir
do sangue do Ramos, da Silla, da Ntungue e do Cabral
que coloriu a nossa bandeira (ku boé pega partu)

A luta de libertação nacional terminou
depois de muitos “paranta ku tchebur”
a Guiné e Cabo verde libertaram-se
mas ainda não se libertam
o Tite, o Komo e a Guiledje,
o Fogo, o Sto. Antão, o mercado “somnadur di Bande”
a liberdade só terá significado quando o M’bana Kabra,
o Duarte Kambalala deixarem de “coicoir”
nos becos e guetos das nossas tabancas


por:Manuel Pedro Pereira Junior(DJOMBODIKILIN)
Estudante do Instituto Hoteleiro e Turismo (Turisìo).

****************
GEBA, O RIO TESTEMUNHO

Antes de se calarem as metralhadoras assassinas
já choram …
choravam viúvas e órfãos
antes mesmo de pararem todos os corações massacrados
já se entendia que a liberdade tem um preço…
Tudo começou no Pindjiguiti
O rio Geba a tudo assistiu
E testemunho …
O rio …
O rio que corre com os vultos dos que a sua margem tombaram
O rio …
Rebolando-se no chago ensanguentado da nossa razão
Debruçadas sobre seus respectivos cadáveres
Lacrimavam, lacrimavam
As gaivotas que ali passaram iam divulgando a dor
Os malfeitores ainda lá estavam
Com os olhos atentados que ainda respiravam
Os mais idosos
Somente esses
Murmuravam sua mágoa
Mágoa que aparentava-se infinita
Mas o Geba estava lá
O Geba é testemunha
Corpos ensanguentados flutuavam
Ensanguentaram o nosso Geba com sangue irmão!
Mas afinal era o início
O início do fim.
Obrigado nossos primeiros combatentes!
Combatentes de Pindjiguiti
Combatentes que mereceram o merecimento de Cabral!
E que jamais haja botas estrangeiras
Espezinhando nosso sentimento, nossa cultura …
nossa razão…

Luis Artur Seabra(TUI)
Estudante da Faculdade de Direito (Direito)


***********


ACORDA CABRAL!

A nossa identidade está
a perecer
olhei e vi a cidade
escancarada num silencio
moribundo
os monumentos a pó da terra
a bandeira, nossa verdadeira identidade,
já não brilha, já é escura como o amanhecer
antes da aurora

Acorda Cabral!
ou é grito da águia
na aurora mesquinha?
ou é grito do leão faminto
ao raiar da lua?

ou será o grito da criança
ao colo da mãe que foge
inocentemente da fúria
da morte destinada
ou o que é?
ou é que, nesta anarquia hipócrita,
que te fará acordar?

Acorda cabral!
acorda-te hoje mesmo
que amanha é outra centelha da vida

despertai com os lírios
dos campos
com as ondas do mar que
sobem
se não a nossa identidade
perecera, e seremos
como umas dessas
alimárias selváticas
que não se conhecem identidade
de cada uma
seremos como uma dessas aves diurnas que sulcam
debandada mente a brisa da noite

Acorda cabral!
e a nos também!
cada um de enxada nas mãos
e calças bem cingidas
partiremos em busca de novos
horizontes p’ra lavrar
cultivar e regar continuamente
as memórias dos mártires guineenses

por:Alberto Denca
Estudante da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
(Administração Pública)

*********
EI, AMILCAR REVOLUCIONÁRIO!

Ouviste as vozes sufocantes do Povo da Guine
combatentes infatigáveis
sempre inspirados na liberdade
quem é que não queria a liberdade?
todos queriam, mas não podiam falar …

nas tuas mãos estavam depositadas
as esperanças do povo guineense

com a tua inteligência conseguiste mostrar á africa
e ao mundo que a força unida do povo guineense
oprimidos até então triunfara

pegando em catanas, machados, paus
combatemos os colonialistas
e com a razão ao nosso lado vencemos
proclamando a independência do povo guineense
tornando-o mais um país livre em áfrica

Obrigado Cabral

Ledy Alfredo da Costa
Estudante da Faculdade das Ciências Sociais e Humanas
(Administração Pública)
************


TIRAM-ME O ALGEMA DO CORAÇÃO


As luzes dos céus incandesceram
As noites das nuvens cinzentas
fizeram expandir a magoa
que abalou o coração guineense
o coração cabo-verdiano
o coração africano

Neste dia, trovejou na minha terra
relampejou nas ilhas de cabo-verde
a africa inundou
Chuvas …
chuvas que como estas
jamais cairam no meu chão
jamais cairam sobre a minha bandeira
chuvas …
chuvas que caiam dos olhos
corriam toda a face
e desaguavam no peito
peito de dor
peito da mamã áfrica

isto era um fogo-frio
que d’um lado me queimava
do outro, me consolava

o físico dos homens
desapareceu
mas as suas obras
estavam vivas

Abel Djassy, os camaradas te chamaram
Cabral, eu te chamei
te chamei para dizer que o caminho
que com as tuas mãos construíste para mim
já o encontrei
e que para amanhecer
é questão de consenso
porque debaixo do poilão
já não há escuridão

com os olhos no tempo
já atravessamos o mar de sangue negro
isto foi o repousar dos combatentes
isto foi tudo o que os homens levaram consigo
isto foi tudo o que nos restou


tiram-me a algema do coração
pois, tudo o que pedi
foi liberdade
tudo o que pedi
foi a independência
tudo o que humildemente
pedi ao meu patrão
foi o despisar das suas botas criminosas
do meu chão

as colheitas que com muito
suor e carinho
plantariam os homens
foram todas assassinadas
mas, nas bembas haviam
ainda sementes
a minha terra, esta sim
foi aterrorizada
mas de mim não tiraram nada.

Tengna Nafafe
Estudante da Faculdade de Filologia (Jornalismo)

*********

INDIPENDENSIA



ampus
500 anus pasa
no donas, no papes, no mames
lebadu e rastadu e trokadu
ku tabaku, panu, kana, sapatu
ku utrus kusas ku n ca pudi tchoma

sol tudu noti ku i noti
na mansi so ki i ta resta nel
i bim ten un fidju di guine
ku tchoma cambarada cabral
nnao i camarada cabral
ku punta: kin ku misti independensia ?
tudu misti ma ninguin ka pudi papia
ku kolmo na mon
korenti na garganti
tchikoti na mon na kosta
ai nha ermons
i limarias ou pekaduris ?

cabral djunta si ermons
i nterga elis mantchadu, tarsadu ku manduku
bo kutila, si mermeri
bo mandukia

cabral muri, ma si forsa ka muri
Onze anus pasa bas di sol, serenu ku tchuba
Independensia faladu, bandera ialsadu, viva pupadu
Antigus ku si kombatentis entra prasa
Prasa djumbuli
Nangnanghidus – nangnanghi
Tartaridus – tartari
I katen nanunke – ku fadi simbaba
Nsonda – nsondadu

Na es brasu un palma, prua vira kontra mare
Ki kussa ki bisti di panu burmedju, ku kampainha
na rabada, si fiansa pa i tchiga matu

n ripindi keku manda, i masan n ka pontarial
i kuspin n ka bunfal
i kacan n ka ialal
Pa indipendensia, Cabral na seu, Dimingu Ramus na seu
Pansau Na Isna na seu, Titina Sila na seu, Dom Septimio A. Ferrazzeta

Na djunda djunda de Djanke Wale ku Agusti timba na Polon di Bra
Watcha – Katcheu

Ibraima Sane
Estudante da Faculdade de Engenharia
(Construcao Civil)

*************



KURI KURIDU!
PUNTA PUNTADU!
RAPA TCHIGA TOTIS!

Turpesa rastadu pa sintanda omi garandi
Ku sintidu susu, omi rasa banana, toma bandera di fama
N’na kosta nha kara i tistimunhu di nhara sikidu

Kuma na kil noiti si gritu obidu di fundu di matu tena tabanka
Moransa kinti wit suma kuntchur di tia Pampa
Homi garandi muri

Hoje e dia de luto no povoado
E um dia de confusão e de desespero
Hoje há luto e silencio no Kitafine

Veio o M’bana
Com o seu barcafon de ódio
E foi odiado

Fixou no povo um olhar frio
A ver se alguém tremia
Mas ninguém tremeu
Todas as forcas do povo contornavam ódio
O povo odiou M’bana

Depois ele fez um sorriso amargo
Como que uma provocação,
Odiado

Com um malefício e pronunciou com desespero:
Cabral muri, nha djintis !!!

No dia ku motika
Kal ku no sorti?

Perguntou o Arfam
De que morte?
Respondeu o M’bana:
A morte que vem subitamente
A morte que vem inesperadamente
A morte que vem a correr
Que vem de passagem

Pubis punta, mas kal ku no sorti ?
M’bunde fala elis:
Bo djunda turpesa bo sinta
No pensa na no Guine !



Oliver Biquer Oliver Biquer
Estudante da Faculdade de Engenharia
(Construcao Civil)

**********



FINDOU A NOITE E RAIOU A MADRUGADA

Quanto mais brilhavam as lâminas
cantando as minhas orelhas,
mais pairavam as deduinas
nos meus túneis dançavam as abelhas
inquietas, insonolentas e turbulentas
melancólicas, mórbidas e nostálgicas

curtindo aos ritmos dos tambores
ao toque das mandíbulas
em semblantes de peixes
içados ao hino monótono dos pescadores.

os papagaios e as borboletas
flutuando no berço das fogueiras
no patamar do senhor das terras,
vendo pirilampos a horizontes manhosos
frente de um mar de venenos
inconcebível atravessar!
sendo ventos revoltantes
aguas refutantes
desertos refugiantes
contraindo oásis mortíferos,
dos andares escaldantes
nas sombras dos dias prósperos,
divertindo-se ao espelho da lua
numa mata desnuda

no céu da rua
já amanheceu a bússola
transformando o relógio magnético
do teor profético
são horas de partir para bem longe
pois nesta pátria sagrada
findou a noite e raiou a madrugada
onde se correm mares contagiantes

Allende Samori Fernandes(Alsafequa – o Profeta )
Estudante da Faculdade das Ciencias Sociais e Humanas
(Sociologia)

sexta-feira, janeiro 13, 2006

O olhar triste de um líder



a brisa pindjiguitiana
bate suavemente no meu busto
sem corpo para mais sofrer
atrás dos meus óculos - um sonhador
debaixo da minha sumbia - um pensador[1]

dizia eu:
«sou um simples africano a cumprir o seu papel na sua própria terra»
«os que sabem devem ensinar aos que não sabem»
«as crianças são as flores da nossa luta a razão principal do nosso combate»

afinal ninguém se sente guineense
não há quem ensinar aos outros
e que as crianças «kolontchidus»[2]
são as flores murchas de sede
e, que combatia não porque tinha razão

passados já quase trinta anos
e ainda os olhos do meu retrato
espia o prato do povo
feito de dores e dissabores
que p’ra meus continuadores
e uma legítima lógica
discriminada da minha linha ideológica

o meu olhar é triste
o meu olhar as «bideras» do cais[3]
que «kutikuti» com as barrigas das crianças[4]
por causa do pão nosso que não chega a todos
«afadi tchabi» que não abre a toda as portas[5]

Manuel Pedro pereira, Jr.
(DJOMBODIKILIN)
Moscovo, 30/08/2003

#

[1] sumbia - espécie de barrete
[2] kolontchidus - palavra crioula que significa famintos
[3] bideras- vendedoras
[4] kutikuti- palavra crioula para “engenhar”,desenrascar-se
[5] afadi tchabi-como se fôsse a chave

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Djunda-djunda


na djunda-djunda
di sol ku lungha
n ka na mati la

si pintchadur di lenha
ka tem
anta nha boka ka sta la

ma suma bantaba
i na nha tapada
anta n djumna tchon

21.06.01
N.A.

Kabantada
























ora ku mundu na bida kaba
ora ku tchon na bai iagu
oki djine na bai si nteru
n ka na mati la
n ka na mati laba dufuntu
n ka na mati kamba kaxon
n ka na mati karga djongagu

dia ku mundu na kaba
n na bai djuti suma djurto
na fiu di kabelu branku
di polon bedjoti
ku foga na baril di aos
na djitu di libra sarampu
na moransa sin erderu

n ba ta djamu ku un kuku di udju
di n'ulidera di garasa di fadiga
tchur di noiba nobu ku ka saradu
(padas di ratadju ku ka tchiga
mundu di soda pa feti-feti)
sin panu di pinti na fundu mala
paqui si mortadja fadjaduba dja
aonti na toka-tchur di amanha

20.03.2001
Viseu?
Ndongle Akudeta

Bejusa

té pa bedjusa na kasa
mindjor na mortu
sabura dja ta bim lakati
kosta ta gasta na katri
i sim o i ka sin satu?

frintanba ku kabra-di-matu
ku mediba tiu lubu na nobresa
na lebsimenti ta bin dal tapona
mangu birdi ku sutau na totona
bas di pe di sombra ku bu ta diskansa
dinti ta falsiau pa disinganal

tchiu tempu dja pardos
kil ku gustus-ba anta malgos
n' ka regua nha flur
ai... kal koldadi di dur!


B.leza.09.12.01
Ndongle Akudeta

Nha Nomi


feito
palimpsesto
para a reescrita
sem rascunhos

sou a tela
em que se esboça
todo um vasto teorema
sobre a arte

acima de tudo
sou saliente
como uma moldura

e de repente
com punhos e vela
sem protesto
constroem novelas
a encenar-se no marte

2003.29.29
Adão Quadé

oiço o teu palpitar

oiço o teu palpitar
a baloiçar na corda bamba
de uma promessa falhada

afogando o tempo no contratempo
o fio de prumo converge os pontos
em linhas curvas do desencontro

a luz do teu transpirar quente
revela a tortura de um gemido obscuro
rangendo as grades em mármores
feito de lama ebanal do teu peito sem jeito

água do copo entornado
nunca mata a sede ao corpo
mas o cântaro que vai a fonte
um dia até lá se encontra o amparo

A.Quade
30.08.2003

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Nha fala

À Lídia à beira do rio

*
Nha fala i un dus pasu
atlantiku na diapason
kuimbra neni bu tuada
na un kurpu kebra-kebradu

na un maranha di iran segu
bu sirbi tas na barkafon
di nha poetandadi

bustu di kabral na iari-iari
kuma tchon ka rakunsil

suma kobra ku na ramenda
djunki turpesa di mar
bu latchi bu tadju di palmera padida

malila bagana forsa
pubis taranta didia uan
bu serpentasku
teju ku na lagua
beju di maron di djiba

kur di bu djindjirba pe di ankol
katabentu di ermankono
na prantcha di sakor

nha sunhu i kil un son son
ma falan kuma
liti ku basa ka ta djunki
kabas di djamakosa

n sikidu na Pindjiguiti
n na panga foli
pa maskotia bu suris
na kalkanhada di pilikanu
pa bua sai nkanta mundu

ku bu garganti fonghol
na palku nha sunhu
alma-beafada
reinu di ndoli

Ndongle Akudeta
23.03.05 - 18:00

quarta-feira, dezembro 28, 2005

O poeta não cala


Neste tamanco que não é meu
vou andando
que me dói o calo
neste fôlego poético
vou respirando
porque eu…
eu não me calo

“na fedi” ou “na sabura” [1]
apraz-me esta gala
o poeta não se cala
e nunca pode
nesta loucura
que deixa os fracos
inânimes e pasmados

o poeta tem algo a dizer sempre
mesmo sem palavras
mesmo se em voz timbre
ou se em folhas amarrotadas

Manuel pedro Pereira, Jr.
(DJOMBODIKILIN)
Moscovo, 02/12/2005

*
[1] “na fedi” ou “na sabura” – expressão crioula que significa - em tristeza ou em alegria

terça-feira, dezembro 27, 2005

EM SIMPLES IDEIA NASCE GRANDES PROJECTOS

"Aqui vai o poema de que te falei.
é da autoria de um jovem a estudar no Brasil... é muito bom em escrever, agradecia q públicasse as obras dele no seu espaço.
Abraços"
Nelson Constantino Lopes, Obulum




Nasce o compromisso na via árdua
duma alvorada para ombrear o cansaço
e continuar démarche
até que nos olhos exaustos
nos corações afligidos
se apaga a fogueira da dor
que em vãos devaneios se faz do homem
semeador da quimera e não tanto
realista que o mundo já teve
deste furor, dias a fio
correndo as veias do tempo circundante
para que o futuro espreite melhores dias.


Da autoria: Avelino Gomes Costa

Brasília-DF, 15/12/05

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Filinto de Barros e o Kikia Matcho




Filinto de Barros: acerto de contas com o passado?

por: Moema Perente Augel


Filinto de Barros afirma que seu romance Kikia matcho não passa de um pequeno exercício de ficção. Nem história, nem sociologia, nem etnologia, nem política, tão somente uma abordagem que se pretende dinâmica do processo de síntese sócio-cultural de um Povo (cf. Barros, 1998, p. 7).
O título é a designação crioula para o mocho e a essa ave são atribuídas na Guiné-Bissau propriedades diversas: pode ser mensageira do bem e do mal, mas sobretudo é ligada a maus presságios e à má sorte. Através do kikia e da sua simbologia, Filinto de Barros introduz o leitor e a leitora no mundo mágico e mítico africano ao mesmo tempo em que, pela interação das personagens, estabelece a ponte entre o passado e o presente.
Em seu conjunto, o livro Kikia matcho encerra uma soma de informações sobre o processo da independência e os primeiros passos de um Estado em formação. Essas informações são a razão de ser da obra, a estória constituindo apenas um pretexto. Ao mesmo tempo em que informa, ativo participante que foi da gestação e do momento desse parto, Filinto de Barros mobiliza os diferentes níveis da narrativa, direcionando-os tanto para o exercício dialético da compreensão do processo como para o julgamento dos seus resultados. Informação a nível do passado e interpretação a nível do presente, o romance deixa entrever sombrias perspectivas para o futuro. É sobretudo uma constatação dos acontecimentos contemporâneos com um olhar para o já acontecido, com o fito de esclarecer, explicar a situação atual do país.
O abandono sofrido pelos antigos combatentes da liberdade da pátria, cujo soldo não basta para um saco de arroz, é mostrado bem cruamente em Kikia matcho e seria um exemplo do desmascaramento intencionado pelo romancista Filinto de Barros.
Uma lembrança presente no coração do povo, que não faz parte da herança hegemônica, foi ainda evocada por Filinto de Barros que pôs a descoberto o fato do combatente morto ter perpetrado atos menos nobres, vergonhosos mesmos, não coadunando com a aura de heroismo que sempre envolve os "combatentes da liberdade da pátria". O autor ousou assim confessar o lado podre da gloriosa luta da libertação nacional, o abuso nunca mostrado às claras da utilização indevida das armas, evidenciando a perversão da "cultura da guerra", presente não só no campo inimigo. O processo de revirar ou reverter certas ambigüidades morais e factuais, cristalizadas em poderosos mitos patrióticos, faz parte da construção social da realidade, para usar a expressão divulgada a partir de Berger e Luckmann na Sociologia4. Ela é desmontada aqui e confrontada com uma outra visão, oposta e desafiadora.
Somente alguns poucos meses após a publicação desse romance, a 7 de junho de 1998, como já disse, eclodiu no país uma revolta no seio dos grupos dirigentes, entre representantes dos heróis da libertação transformando-se em guerra aberta e dolorosa que, depois de onze meses de sempre renovados conflitos armados, encontrou uma solução, que esperemos seja duradoura, a 7 de maio deste ano de 1999. Os presságios do Kikia Matcho ou os horrores acumulados em Mistida parece se terem confirmado. O sangrento embate entre fracções do exército nacional e contra o povo que conta entre os mais pobres do mundo, relança o questionamento sobre a legitimidade do regime tido como revolucionário, há quase trinta anos no poder, e sobre seus dirigentes, em grande parte os mesmos desde a independência. O legendário e carismático PAIGC está onipresente no romance de Filinto de Barros. Os donos do poder estão caricaturados até a desfiguração no romance Mistida, de Abdulai Sila. A revolta militar encabeçada pelo chefe do Estado Maior do Exército, General Assumane Mané, contra o governo dirigido pelo Presidente João Bernardo ("Nino") Vieira é expressão da crescente insatisfação e da decepção aqui tantas vezes já exteriorizadas, da parte dos antigos combatentes pela liberdade da pátria, compartilhadas pela grande maioria da população.
Esses recentes acontecimentos na Guiné-Bissau estão contribuindo para que o discurso oficial hegemônico se esvazie e perca a sua aura, reiterando de forma dramática a triste atualidade da urgência de uma reinterpretação da História, reflexão essa encetada pelos romancistas pioneiros Abdulai Sila e Filinto de Barros.
Considerações finais
Todos os escritores aqui referidos têm em comum uma tarefa de recuperação da africanidade e da dignidade perdidas, de procura e de afirmação da identidade nacional: tanto os afrobrasileiros como os guineenses, cada grupo a seu modo, cada autor com seu estilo próprio, com sua voz única e específica. Trata-se de uma literatura exortativa, sim, literatura engajada, literatura social, no seu sentido mais amplo, mas literatura exercício estético de beleza e busca do eu e do nós, mais profundo e mais verdadeiro, que têm a ver com raízes, umbigo, magma; literatura incitamento a um mergulho dentro de um passado doloroso e de difíceis lembranças, incitamento à empatia, ao sentir com, ao fazer com, incitamento à adesão, ao "concerto do djunta mon", de que fala o escritor guineense Tony Tcheka (1996:69).
O passado, tanto o passado bom como o passado infame, tem que continuar sendo relembrado como uma parte da identidade do africano assim como do afrobrasileiro. Embora consciente de que um número cada vez mais numeroso de afrodescendentes tenham hoje em dia alcançado um nível social e financeiro muito elevado e a franja dos bem sucedidos seja cada vez mais larga, no mesmo poema Cuti não deixa esquecer: Hoje é amanhã e ontem [...] / chicotes modernos não só relembram são chicotes/ que batem que rendem mais aos fundos senhoriais (Cuti, Resposta).
Cuti, que sempre, em todos os seus escritos, convida e incita à reflexão, admoesta: Quem disse [...] que é preciso calar a voz dos ancestrais? (ebd).

___________________________________
Bibliografia
Alves, Miriam, Momentos de busca. Poemas, São Paulo: Edição daAutora, 1983
Assmann, Aleida und Jahn, Christof Hardmeier (Org.), Schrift und Gedächtnis. Beiträge zur Archeologie der literarischen Kommunikation, München: Wilhelm Fink Verlag, 1983

Assmann, Jahn, Die Katastrophe des Vergessens, in: Assmann, A.e D. Harth (Org.), Mnemosyne. Formen und Funktionen der kulturellen Erinnerung, Frankfurt/M: Fischer Verlag, 1993, p. 339-347

Augel, Moema Parente (Org. e Intr.), Schwarze Poesie. Poesia Negra. Afrobrasilianische

O Autor

Filinto de Barros nasceu em Bissau a 28 de Dezembro de 1942. Fez estudos secundários no Colégio Nuno Álvares, em Tomar, e estudos superiores na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra e no Instituto Superior Técnico da Universidade Técnica de Lisboa. Depois da independência da Guiné-Bissau foi embaixador em Lisboa, entre 1978 e 1981. Na Guiné-Bissau exerceu vários cargos políticos, entre os quais ministro da Informação e Cultura (1981-1983), ministro dos Recursos Naturais e Indústria (1984-1992) e ministro das Finanças (1992-1994).

Mistida: Uma obra de ficcão guineense adaptada ao teatro

Os Fidalgos, grupo de teatro guineense, estrearam “Mistida”, de Abdulai Sila, no dia 30 de Outubro, em Bissau. Com este trabalho, baseado em dois capítulos do romance do escritor guineense Abdulai Sila, publicado em 1997, Os Fidalgos, pela voz de Amélia da Silva, pretendem «mostrar que cada um tem a sua mistida, um assunto muito importante na vida para resolver, seja onde for». Nas palavras do autor, que escreveu ainda “Eterna Paixão” e “A Última Tragédia”, “Mistida” significa amor, demanda interior que nos impele à sua procura. A direcção artística do espectáculo está a cargo de Amélia da Silva, Jorge Biague e Musa Camará, com o apoio de Andrzej Kowalski. Paralelamente a esta estreia, Os Fidalgos preparam a re-montagem do espectáculo “O Lutador”, uma co-produção do grupo com a Cena Lusófona estreada em 2002 e apresentada no ano passado em Coimbra no programa da Estação.
SILA, Abdulai

[GUINÉE-BISSAU] (Catió, 1958). Ingénieur électronicien. Cofondateur de la première maison d'édition privée Ku Si Mon et de la revue littéraire Tcholona, en 1994.
Romancier (Eterna Paixão, 1994 ; L’Ultime tragédie, 1995 ; Mistida, 1997, etc.). Considéré comme le premier roman guinéen Eterna Paixão traite de la transition de la société guinéenne, du passage des structures coloniales à l’installation d’une nouvelle élite issue de la lutte pour l’indépendance.
L’Ultime tragédie revient sur la période coloniale à travers le personnage d’une femme, Ndani, dont on dit qu’elle porte malheur.ANTHOLOGIES / REVUES : « Un monde si différent » (extrait de L’Ultime tragédie, 1995), traduit par Alain Canihac et Grazeiella Neves Forte Canihac, dans Des nouvelles du Portugal, Métailié, 2000.
— L’Ultime tragédie (A Última Tragédia, 1995), roman, traduit du portugais par Alain Canihac et Graziella Neves Forte Canihac. [Paris], Éditions Sépia, « Sépia-Poche », 1996, 224 pages, 7 €
Em Lisboa pode-se achar os livros de Abdulai Silá em Livraria Mabooki ou Instituto Camões.

A prosa contemporânea na Guiné-Bissau



Conquistada a independência, as novas burguesias e as novas elites estatais africanas conseguiram estabelecer um sistema de conservação do poder que passou a funcionar a todo preço, baseado na repressão, no partido único e no governo do "homem forte". O resultado foi que em muitos países se instalou uma oligarquia corrompida, preocupada com o seu próprio enriquecimento e com as suas próprias vantagens, enquanto que o povo continuou nas mesmas dificuldades, lutando por uma sobrevivência material e moral, cada vez mais miserável. As esperanças existentes outrora, quando o fim da colonização, cada vez mais próximo e concreto, animava aos que lutavam pela libertação, acenando para um mundo de igualdade e justiça, foram substituídas pela frustração, pelo derrotismo e pelo acomodamento(1). Tal estado de espírito é comum a toda a África negra.

Na galeria de personagens de Abdulai Sila destaca-se, no seu terceiro e mais recente romance, intitulado Mistida, um desfile alucinante de figuras absurdas: Amambarka, Nham-Nham, Yem-Yem. Sobressai-se o aberrante e assustador Amambarka, parricida, ganancioso, viciado e execrável, cujos traços repugnantes foram hiperbolizados pelo romancista até a exaustão (cf. p. 87-96). Esse nome foi tirado da língua mandinga, sendo um lexema que tem conotação de coisa ruim, do que não presta. Nham-Nham, onomatopéia indicadora do ato de comer, é um ser repugnante e alienado, cego pelo poder, entorpecido pela bajulação, idiotizado mas perigoso, completamente dependente do diabólico Amambarka. Yem-Yem, o "carrasco", é outra figura intangível, enredado na busca da palavra esquecida (ibid., p. 161), aterrorizador das pessoas (ibid., p. 171).
Esses seres chocantes, porém, foram inspirados em pessoas reais, deformadas e caricaturadas, para os menos avisados impossíveis de serem reconhecidas mas nem por isso menos verdadeiras nem menos ameaçadoras, pois faz parte da arte de convencer lançar mão de recursos do horror. Os protagonistas de Mistida, aparentemente absurdas personagens, são verdadeiros atores da sociedade atual - e não só da Guiné-Bissau - e estão, cada um a seu modo, em busca de "estratégias individuais postas em jogo à procura de saídas e novos sentidos que permitam sobreviver à desestruturação", como disse Teresa Montenegro no prefácio. Mais uma vez, apesar dos horrores que enchem este seu terceiro livro, Sila lança sua mensagem de esperança, de teimosa esperança: existe uma perspectiva para seu sofrido país. Apesar dos montões de lixo, material ou humano, há as Mama Sabel, as Mbubi, as Ndani e as Djiba Mané, personagens femininas fortes e até certo ponto contraditórias, sumamente positivas, com as quais o autor se identifica e que personificam a comunidade subalterna, sem poder, mas vigilante e altiva.
Em Mistida, Abdulai Sila escolheu as vias oblíquas do absurdo e do paroxismo para pôr a descoberto o indizível, aquilo que, embora não tivesse sido esquecido, estava obliterado e silenciado. Esse caminho ziguezagueante tornou-lhe possível recordar um passado recente cheio de contradições e afrontar um presente já agonizante que se queria (ou ainda quer?) eternizar no futuro. Quem está seguindo os acontecimentos atuais na Guiné-Bissau pode, mais do que nunca, captar os lances terrivelmente proféticos de Mistida.
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(1). Sobre o assunto, cf. Guy Ossito Midiohouan, L'idéologie dans la littérature négro-africaine d'expression française, Paris: L'Harmattan, 1986:208 e ss.
Sila, Abdulai, Eterna paixão, Bissau: KU SI MON Editora, 1994, Sila, Abdulai, A última tragédia, Bissau: KU SI MON Editora, 1995

Sila, Abdulai, Mistida, Bissau: KU SI MON Editora, 1997
Augel, Moema Parente, A nova literatura da Guiné-Bissau Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP), 1998, Série literária, Colecção Kebur, nº 8
Cuti, Batuque de Tocaia, São Paulo: Edição do Autor, 1982
Cuti, Flash Crioulo sobre o sangue e o sonho, Belo Horizonte: Mazza Edições, 1987

A Guiné-Bissau e sua prosa ficcional

Moema Parente Augel

Na Guiné-Bissau, país de história recente em vias de grandes transformações sociais, a sua incipiente literatura reflete tanto esse jovem passado e os caminhos da emancipação como o estado emocional dos guineenses ante a decepção causada pelo que se considera a traição dos ideais revolucionários por parte dos dirigentes. A produção literária contemporânea faz eco, na sua variedade, aos anseios e às preocupações da elite intelectual urbana, inconformada com a situação política e social do momento presente. Assim, dada a quase inexistência de fontes escritas de informação, travar conhecimento com as obras que aí se estão produzindo desde a independência é uma das melhores maneiras de compreender e apreender este pequeno enclave de língua oficial portuguesa, de cerca de 36.000 km2, no meio da costa ocidental africana.
Com seus três romances (Eterna paixão, A última tragédia e Mistida), Abdulai Sila, que é o fundador da ficção guineense, não se restringe à simples constatação do desastre em que resultou a libertação do jugo colonialista, nem se detém apenas no desfiamento das mazelas que cobrem o povo guineense: vai procurar os responsáveis e os denuncia, direta ou indiretamente. Filinto de Barros, com seu único romance Kikia Matcho, desenvolve, a seu modo, paralelamente à trama romanesca, um amplo esquema de explicação para basear suas críticas e sua análise do momento por que passava seu país. Também ele levanta a voz e denuncia, põe o dedo nas feridas abertas pelos seus próprios correligionários1.
Os recentes acontecimentos na Guiné-Bissau, que culminaram com o desencadeamento da guerra fratricida que por mais de um ano (mais exatamente de 7 de junho de 1998 a 7 de maio de 1999) tumultuou e desarticulou o país, estão contribuindo para que o discurso oficial hegemônico se esvazie e perca a sua aura, reiterando de forma dramática a triste atualidade da urgência de uma reinterpretação da História guineense.