Mussa Turé
Na doçura do teu jeito
encontraste uma alma
sem jeito
de te amar mas que ama
Preta fina flor dos Bijagós
feita kampune de Onhokom
porque trazida do matu malgós
do cemitério de Komo
Na lealdade das tuas palavras
lambe o que digo e faço
não vejas o que fez em mim o tempo das pedras.
Kampune
Porque demoras tanto
com tanto sal e salsas
sempre te esperando no entanto
Com certeza ou não
fico espreitando
para te ver chegar ou não
com teu jeito de gazela
como ponta de iceberg no deserto
Afinal no meu pobre leito
podes embalar teu nobre peito.
(in "Guiné", Mussá Turé, Letras Africanas, Lisboa, 2001)
.....................
glossário
Kampune - Menina; Bijagó-etnia da Guiné;
Onhokom -Aldeia dos Bijagós;
Matu Malgós - Floresta sagrada;
Komo - Aldeia da Guiné.
quinta-feira, maio 11, 2006
KAMPUNE
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A.Quade
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11 Maio 1981- 11 Maio de 2006: Bob Marley Revisited
"Don't worry about a thing,
will gonna be alright. "

Robert Nesta Marley (6 de fevereiro de 1945 - 11 de maio de 1981), mais conhecido como Bob Marley, foi um cantor, guitarrista e compositor jamaicano. Ele é o mais conhecido músico de reggae de todos os tempos, famoso por popularizar o gênero.
Grande parte do seu trabalho lidava com os problemas dos pobres e oprimidos. Ele foi chamado de "Charles Wesley dos rastafaris" pela maneira com que divulgava a religião através de suas músicas.
Bob foi casado com Rita Marley (uma das "I Threes", que passaram a cantar com os Wailers depois de eles alcançarem sucesso internacional). Ela foi mãe de quatro de seus nove filhos, os renomados Ziggy e Stephen Marley, que continuam o legado musical de seu pai na banda Melody Maker. Outro de seus filhos, Damien Marley (vulgo "Jr Gong") também seguiu carreira musical.
Biografia

O ano de 1945 foi um grande ano. Foi em 45 que, depois de nove anos de uma guerra que matou milhões de pessoas em todo o mundo, finalmente a paz voltou a reinar na Terra. Em todos os cantos do planeta as pessoas se abraçaram e puderam comemorar o final do mais triste episódio da história da humanidade. Milhares de filhos voltaram para suas casas, famílias se reencontraram e a construção de um novo tempo começou. Entretanto, em 1945 houve outro grande acontecimento, que só alguns moradores da pequena vila de Nine Mile, interior rural da Freguesia de St. Ann (Santa Ana), no norte da Jamaica, comemoraram. Foi no dia 6 de fevereiro desse ano que lá nasceu o menino Robert Nesta Marley, filho de Cedella Booker, uma garota negra de apenas dezoito anos, e do Capitão Norval Marley, do Regimento Britânico das Índias Ocidentais, um inglês branco de 50 anos de idade que, devido a pressões de sua família na Inglaterra, apesar de ajudar financeiramente pouco conheceu o filho. Mas para entender melhor a história desse menino é preciso voltar um pouco mais no tempo.
Apesar da escravidão ter sido abolida na Jamaica em 1834, aqueles dias de sofrimento ainda estão na memória dos descendentes de africanos e, misturados com os costumes ingleses, fazem parte da cultura da ilha. Já no começo do século passado a herança africana começava a ter expressão política com Marcus Garvey, um pastor jamaicano que fundou a Associação Universal para o Desenvolvimento do Negro.
A organização defendia a criação de um país negro, livre da dominação branca, na África, que recebesse de volta todos os descendentes de africanos exilados na América. Foi inclusive com esse intuito que Garvey chegou a fundar uma companhia de navegação a vapor, a Black Star Line. Mas Marcus Garvey é lembrado na Jamaica também por outro motivo. O pastor, nas suas pregações, costumava repetir uma profecia que logo se espalhou entre a população negra. Ele dizia que logo na África surgiria um Rei negro, o 225º descendente da linhagem de Menelik, o filho do rei Salomão e da rainha de Sabá, que libertaria a raça negra do domínio branco. Anos depois esse rei apareceu. Em 1930 Ras Tafari Makonnen foi coroado Imperador da Etiópia e passou a se chamar Hailè Selassiè. No mesmo momento, os seguidores de Garvey na Jamaica passaram a acreditar que a profecia houvesse sido cumprida e começaram uma nova religião chamada Rastafari. Anos mais tarde, essa religião seria espalhada pelo mundo através da música de um menino chamado Bob Marley.
Por volta da década de 50, a capital Kingston era a terra dos sonhos dos habitantes das zonas rurais da Jamaica. Apesar da cidade não ter muito trabalho a oferecer, multidões se dirigiam para lá para fatalmente engrossarem a população das favelas que já cresciam no seu lado oeste. A maior e mais miserável dessas favelas era Trench Town (ou Cidade do Esgoto), assim chamada por ter sido construída sobre as valas que drenavam os dejetos da parte antiga de Kingston. E foi para lá que Dona Cedella se mudou junto com seu filho no final dos anos 50. O menino cresceu nesse ambiente junto com outros meninos de rua e, em especial, seu amigo Neville O’Riley Livingston, mais conhecido como Bunny, com quem começou a tocar latas e guitarras improvisadas em casa.
O som que os dois garotos faziam era influenciado pelas emissoras do sul dos Estados Unidos que conseguiam captar nos seus rádios e que tocavam músicas de artistas como Ray Charles, Curtis Mayfield, Brook Benton e Fats Domino, além de grupos vocais como The Drifters que tinham muita popularidade na Jamaica.
Nessa época, Bob conseguiu um emprego numa funilaria, mas já tinha a música como grande objetivo de sua vida. A busca desse objetivo ganhou dedicação exclusiva quando uma fagulha da solda com que trabalhava queimou seu olho. O acidente não teve gravidade mas o fez largar o emprego e investir unicamente no aperfeiçoamento da sua música com Bunny. Eles eram ajudados por Joe Higgs, um cantor que apesar de já possuir uma certa fama na ilha ainda morava em Trench Town e dava aulas de canto para iniciantes. Numa dessas aulas Bob e Bunny conheceram outro jovem músico chamado Peter McIntosh.
Em 1962 Bob Marley foi escutado por um empresário musical chamado Leslie Kong que, impressionado, o levou a um estúdio para gravar algumas músicas. A primeira delas “Judge Not” logo foi lançada pelo selo Beverley’s. No ano seguinte Bob decidiu que o melhor caminho para alcançar o sucesso era em um grupo, chamando para isso Bunny e Peter para formar os "Wailing Wailers". O novo grupo ganhou a simpatia do percussionista rastafari Alvin Patterson, que os apresentou ao produtor Clement Dodd. Na metade de 1963 Dodd ouviu os Wailing Wailers e resolveu investir no grupo.
O ritmo da moda na Jamaica então era o Ska que, com uma batida marcada e dançante, misturava elementos africanos com o rhythm & blues de New Orleans e que tinha Clement “Sir Coxsone” Dodd como um dos seus mais famosos divulgadores. Os Wailing Wailers lançaram o seu primeiro single, “Simmer Down”, pela gravadora Coxsone no fim de 1963 e em janeiro a música já era a mais tocada na Jamaica, permanecendo nessa posição durante dois meses. O grupo então era formado por Bob, Bunny, Peter, Junior Braithwaite e dois backing vocals, Beverly Kelso e Cherry Smith.
Nessa época chegou pelo correio a passagem que Dona Cedella, que tinha se casado novamente e mudado para Delaware nos Estados Unidos, conseguiu comprar após muito esforço para juntar dinheiro. Ela desejava dar a Bob uma nova vida na América, mas antes da viagem ele conheceu Rita Anderson e em 10 de fevereiro de 1966 eles se casaram. Marley passou apenas oito meses com a mãe antes de retornar à Jamaica, onde começou um período que teve importância especial no resto de sua vida. Bob chegou em Kingston em outubro de 66, apenas seis meses depois da visita da Sua Majestade Imperial, o Imperador Hailè Selassiè, da Etiópia, que trouxe nova força ao movimento Rastafari na ilha.
O envolvimento de Marley com a crença Rastafari também estava crescendo e, a partir de 67, sua música começou a refletir isso. Os hinos dos Rude Boys deram lugar a uma crescente dedicação às canções espirituais e sociais que se tornaram a pedra fundamental do seu real legado. Bob, então, convidou Peter e Bunny para novamente formarem um grupo, dessa vez chamado “The Wailers”. Rita também começava sua carreira como cantora com um grande sucesso chamado “Pied Piper”, um cover de uma canção pop inglesa. A música jamaicana, entretanto, havia mudado. A frenética batida do Ska estava dando lugar a um ritmo mais lento e sensual chamado Rock Steady.
A nova crença Rastafari dos Wailers os colocou em conflito com Coxsone Dodd e, determinados a controlar seu próprio destino, os fez criar um novo selo, o Wail’N’Soul. Mas, apesar de alguns sucessos, os negócios dos Wailers não melhoraram muito e o selo faliu no fim de 1967. O grupo sobreviveu, entretanto, inicialmente como compositores de uma companhia associada ao cantor americano Johnny Nash que, na década seguinte, teria um grande sucesso com “Stir It Up”, de Bob.
Os Wailers então conheceram um homem que revolucionaria o seu trabalho: Lee Perry, cujo gênio produtivo havia transformado as técnicas de gravação em estúdio em arte. A associação Perry / Wailers resultou em algumas das melhores gravações da banda. Músicas como “Soul Rebel”, “Duppy Conqueror”, “400 Years” e “Small Axe” se não foram clássicos definiram a direção futura do reggae. Em 1970, Aston 'Family Man' Barrett e seu irmão Carlton (baixo e bateria, respectivamente) se uniram aos Wailers. Eles eram o núcleo da banda de estúdio de Perry e haviam participado de várias gravações do grupo. Os irmãos eram conhecidos como a melhor seção rítmica da Jamaica, status que continuariam ostentando pela década seguinte. Os Wailers eram então reconhecidos como grande sucesso no Caribe, mas internacionalmente continuavam desconhecidos.
No verão de 1971 Bob aceitou o convite de Johnny Nash para acompanhá-lo à Suécia, ocasião em que assinou contrato com a CBS, que também era a gravadora do americano. Na primavera de 72 todos os Wailers já estavam na Inglaterra, promovendo ostensivamente o single “Reggae on Broadway”, mas sem alcançar bom resultado. Como última tentativa Bob entrou nos estúdios da Island Records, que havia sido a primeira a dar atenção ao crescimento da música jamaicana, e pediu para falar com o seu fundador, Chris Blackwell. Blackwell conhecia a fama dos Wailers e o grupo estava fazendo uma proposta irrecusável. Eles estavam adiantando 4 mil libras para gravar um álbum e para que, pela primeira vez, uma banda de reggae tivesse acesso as mais avançadas técnicas de gravação e fosse tratada como eram as bandas de rock da época. Antes dessa proposta as gravadoras achavam que um grupo de reggae só vendia em singles ou compilações com várias bandas. O primeiro álbum dos Wailers, “Catch A Fire” quebrou todas as regras: era lindamente embalado e fortemente promovido. Era o começo de um longo caminho à fama e ao reconhecimento internacional. Embora “Catch A Fire” não tenha sido um hit instantâneo, o álbum teve um grande impacto na mídia. O ritmo marcante de Marley, aliado às suas letras militantes vinham com total contraste ao que estava sendo feito então. Além disso, a Island promoveu uma turnê do grupo na Inglaterra e nos Estados Unidos, o que era uma completa novidade para uma banda de reggae. Os Wailers chegaram em Londres em abril de 73, embarcando numa série de apresentações que mostraria sua qualidade como banda de shows ao vivo. Entretanto, após três meses, o grupo voltou à Jamaica e Bunny, desencantado com a vida na estrada, se recusou a tocar na turnê americana. No seu lugar entrou Joe Higgs, o velho professor de canto dos Wailers. A turnê americana incluía, além de algumas casas de show, a participação em alguns shows de Bruce Springsteen e Sly & The Family Stone, a principal banda de música negra americana do momento. Mas depois de quatro shows ficou claro que colocar os Wailers abrindo espetáculos poderia ser ruim para as atrações principais. A banda foi então para San Francisco, onde a rádio KSAN transmitiu uma apresentação ao vivo que só foi publicada em 1991, quando a Island lançou o álbum comemorativo “Talkin’ Blues”. Em 73 o grupo também lançou o seu segundo álbum pela Island, “Burnin’”, um LP que incluía novas versões de algumas das suas mais velhas músicas, como: “Duppy Conqueror”, “Small Axe” e “Put It On”, junto com faixas como “Get Up, Stand Up” e “I Shot The Sheriff” (que no ano seguinte se tornaria um enorme sucesso mundial na voz de Eric Clapton, alcançando o primeiro lugar na lista dos singles mais vendidos nos Estados Unidos). Em 74 Marley passou uma grande parte do seu tempo no estúdio trabalhando nas sessões que resultaram em “Natty Dread”, um álbum que incluía músicas como “Talkin’ Blues”, “No Woman No Cry”, “So Jah Seh”, “Revolution”, “Them Belly Full (But We Hungry)” e “Rebel Music (3 o’clock Roadblock)”. No início do próximo ano, entretanto, Bunny e Peter deixariam definitivamente o grupo para embarcar em carreiras solo enquanto a banda começava a ser conhecida por Bob Marley & The Wailers. “Natty Dread” foi lançado em fevereiro de 75 e logo a banda estava novamente na estrada. A composição harmônica perdida com a saída de Bunny e Peter havia sido substituída pelas I-Threes, um trio feminino composto pela esposa de Bob, Rita, além de Marcia Griffiths e Judy Mowatt. Entre os concertos, os mais importantes foram as duas apresentações no Lyceum Ballroom de Londres que até hoje são lembradas entre as melhores da década. Os shows foram gravados e logo o disco, junto com o single “No Woman, No Cry”, estava nas paradas de sucesso. Em novembro, quando Marley voltou a Jamaica para tocar num show beneficiente com Stevie Wonder ele já era obviamente o maior superstar da ilha. “Rastaman Vibrations”, o álbum seguinte, lançado em 76, atingiu o topo das paradas americanas e é considerado por muitos a mais clara exposição da música e das crenças de Bob. O LP incluía músicas como “Crazy Baldhead”, “Johnny Was”, “Who The Cap Fit” e, talvez a mais significativa de todas, “War”, cuja letra foi extraída de um discurso do Imperador Hailè Selassiè, nas Nações Unidas.
Com o sucesso internacional cresceu a importância política de Bob Marley na Jamaica, onde a fé Rastafari expressa por sua música alcançava forte ressonância na juventude dos guetos. Como forma de agradecimento ao povo da ilha, Bob decidiu dar um concerto aberto no Parque dos Heróis Nacionais de Kingston, em 5 de dezembro de 1976. A idéia era enfatizar a necessidade de paz nas ruas da cidade, onde as brigas de gangues estavam causando confusão e mortes. Logo depois do anúncio do show, o governo convocou eleições para o dia 20 de dezembro. Isso deu nova força à guerra no gueto e, na tarde do concerto atiradores invadiram a casa de Bob e o alvejaram. Na confusão os atiradores apenas feriram Marley, que foi levado a salvo às montanhas na cercania da cidade. Entretanto ele resolveu fazer o show de qualquer maneira e subiu ao palco para uma rápida apresentação em desafio aos seus agressores. Foi a última apresentação de Bob na Jamaica por oito meses. Logo após o show ele deixou o país para viver em Londres, onde gravou seu próximo álbum, “Exodus”.
Lançado no verão daquele ano, “Exodus” consolidou o status internacional da banda, ficando nas paradas da Inglaterra por 56 semanas seguidas e tendo seus três singles - “Waiting In Vain”, “Exodus” e “Jammin’” - com grandes vendagens. Em 78 a banda capitalizou novo sucesso com “Kaya”, que alcançou o quarto lugar na Inglaterra logo na semana seguinte do lançamento. O álbum mostrava um novo ângulo de Marley, com uma colecção de canções de amor e, claro, homenagens ao poder da “Ganja”. Do álbum foram extraídos dois singles: “Satisfy My Soul” e “Is This Love”.
Ainda em 78 aconteceriam mais três eventos com extraordinária importância para Marley. Em abril ele voltou à Jamaica para o “One Love Peace Concert”, quando fez com que o Primeiro-Ministro Michael Manley e o líder da oposição Edward Seaga se dessem as mãos no palco. Ele foi então convidado para ir à sede das Nações Unidas, em New York, para receber a Medalha da Paz. E, no fim do ano, Bob visitou a África pela primeira vez, indo inicialmente ao Kenya e depois à Etiópia, o lar espiritual Rastafari. A banda havia recém-terminado uma turnê pela Europa e América que rendeu o segundo álbum ao vivo: “Babylon By Bus”. “Survival”, o nono álbum de Bob Marley pela Island foi lançado no verão de 1979. Ele incluía “Zimbabwe”, um hino para a Rodésia, que logo seria libertada, junto com “So Much Trouble In The World”, “Ambush In The Night” e “Africa Unite”. Como indica a capa, que contém as bandeiras das nações independentes, “Survival” foi um álbum em homenagem à solidariedade Pan-Africana. Em abril de 1980, o grupo foi convidado oficialmente pelo governo do recém libertado Zimbabwe para tocar na cerimônia de independência da nova nação.
Essa foi a maior honra oferecida à banda e demonstrou claramente a sua importância no Terceiro Mundo. O próximo disco da banda, “Uprising”, foi lançado em maio de 80 e teve sucesso imediato com “Could You Be Loved”. O álbum também trazia “Coming In From The Cold”, “Work” e a extraordinária faixa de encerramento, “Redemption Song”. Os Wailers então embarcaram na sua maior turnê européia, quebrando recordes de público pelo continente. A agenda incluía um show para 100 mil pessoas em Milão, o maior da história da banda. Bob Marley & The Wailers eram a maior banda na estrada naquele ano e “Uprising” estava em todas as paradas da Europa. Era um período de máximo otimismo e estavam sendo feitos planos de uma turnê na América em companhia de Stevie Wonder no final do ano.
No fim da turnê européia Marley e a banda foram para os Estados Unidos. Bob fez dois shows no Madison Square Garden, mas logo após caiu seriamente doente. Três anos antes, em Londres, ele havia ferido o dedo do pé jogando futebol. O ferimento se tornou canceroso e, apesar de ter sido tratado em Miami, continuou a progredir. Em 1980, o câncer, em sua forma mais virulenta, começou a se espalhar pelo corpo de Bob. Ele controlou a doença por oito meses, fazendo tratamento na clínica do Dr. Joseph Issels, na Bavária. O tratamento de Issels era controvertido por só usar remédios naturais e não tóxicos e, por algum tempo, pareceu estabilizar a condição de Bob. Entretanto, repentinamente a luta começou a ficar mais difícil. No começo de maio ele deixou a Alemanha para voltar à Jamaica, mas não completou a viagem.
Bob Marley morreu num hospital de Miami na segunda-feira, 11 de maio de 1981. No mês anterior, Marley havia sido agraciado com a Ordem do Mérito da Jamaica, a terceira maior honra da nação, em reconhecimento à sua inestimável contribuição à cultura do país. Na quinta-feira, 21 de maio de 1981, o Honorável Robert Nesta Marley O. M. recebeu um funeral oficial do povo da Jamaica. Após o funeral - assistido tanto pelo Primeiro-Ministro como pelo líder da oposição - o corpo de Marley foi levado à sua terra natal, Nine Mile, no norte da ilha, onde agora descansa em um mausoléu. Bob Marley morreu aos 36 anos, mas a sua lenda permanece viva até hoje.
"NATURAL MYSTIC"

there's a natural mystic blowing through the air
if you listen carefully now you will heart
his could be the first trumpet,might as well be the last
many more will have to suffer
many more will have to die - don't ask me why
things are not the way they used to bei won't tell you no lie
one and all have to face reality
now 'tho i've tried to find the answer
to all the questions they ask't
ho i know it's impossible
to go living through the past
don't tell no lie
there's a natural mystic blowing through the air
can't keep them down
if you listen carefully now you will hear
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A.Quade
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quinta-feira, maio 11, 2006
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Chapa-chapa
bai bota sorti na mon di muru
nao é preciso ir ao marabou»
Manuel Pereira
«A nossa chapa-chapa é nossa manta que nos protege do frio» expressão esta que a N’na Pondu usava pra alicerçar a boa conduta da netinha orfã de quem ela cuidava desde aos sete anos de idade. A Banana cresceu a vender a sua consciência nos becos dos nossos bairros de ruas anónimas. A sua vida de «bidera» em nada interferiu nos seus estudos, aliás ela foi das alunas mais regulares quer pela presença quer pelo sucesso. Hoje a Banana é médica terapêutica pelo Hospital Nacional Simão Mendes, caminho este que trilhou com muito suor, determinação e dedicação.
O calendário assinalava vinte e um dias do mês de Abril e, no céu um sol abrasador de Quaresma quando se deu entrada nos serviços hospitalares de emergência à uma mulher esquelética que pelo preenchimento dos requisitos formais sabia-se que chamava–se Anura. E a espera afêteré que vestia mostrava as profundezas dos poços na parte superior das suas clavículas. Logo foi atendida pela enfermeira de serviço que a deu as primeiras medicações. Passados alguns dias os resultados dos diagnósticos rezavam que a Anura é seropositiva aliás é doente de sida. A esquelética mulher transferida de uma sala para outra onde veio a ocupar a cama número 29 de entre outras numa salada de pacientes.
A Banana ou melhor a doutora Éden nas suas visitas médicas matinais de rotina aos pacientes a dar novas medicações ou a saber de como estão sentindo os enfermos. Estava ela na cama número dois, quando ouviu uma voz meia morta e rouca a chamá-la – «Banana». Virou-se p’ra ela mas não a reconhecia – «Sou eu Anura» – «Anura!» – exclamou a doutora. – «O que é que você tem» – interrogou de seguida. – «Já há muito que estou doente, dizem que é problema com cerimónias de anda cabaz». A doutora ordenou-a esperar continuando distribuir os quininos e papéis de novas análises conforme o evoluir e as exigências de cada. Voltada à Anura ajustou os óculos cor d’oiro e sacou da portfólio o dossier dela. Dando um golpe de vista nas enfermas papeladas disse–a – «segue me», tomando a direcção à sua sala de consultas.
Uma vez na sua sala fitou tristemente na óssea amiga de infância e adolescência enfiada a sua frente numa cadeira, buscando palavras para eximir da já debilitada mente dela os mistos preconceitos tchon’almente.
A doutora ciente de que deve a amiga saber que doença contraiu e como portar com ela, começou assim – olha Anura o seu problema não é nada de anda cabaz ou de tchon e, é sério, – interrompeu o discurso para atender um telefonema vindo de uma das dependências do estabelecimento hospitalar. Retomou a conversa puxando a cadeira para perto da amiga e, segurou as palmas de mãos dela como que a dizer sinto muito. Fitou na amiga e disse–a meigamente
– Você está doente de sida. Mas não preocupe que eu tomo conta de você e, tudo vai correr bem se Deus nos ajudar.
– Tudo vai correr bem se Deus nos ajudar – repetiu a Anura cabisbaixa, dando uma pausa –Doutora! Não vês que já sou defunta – continuou ela.
De um dos armários a Dra. Éden puxou a gaveta de onde tirou um pacote de antiretrovirais que entregou-a explicando as instruções de como tomá-los.
Passados dias, semanas e a Anura contente pela forma carinhosa que vem sendo tratada pela companheira doutora achou que é dado retribuir dizendo pelo menos obrigada. Bateu a porta, pediu permissão, penetrou na arcondicionada sala e, encaixou-se na cadeira oposta a da doktor. E, no entanto a doente no lugar de obrigado começou com desculpas ou melhor com remorso de riram-se da amiga quando ainda adolescentes e companheiras de turma.
– Doutora, desculpe-me. Esta é a nossa sorte. E cada um tem a sua. A minha é esta.
Caros virtuais leitores, a nossa sorte tem um peso e uma medida. Em toda a nossa vida a nossa sorte tem metade de caneca que é cinquenta porcento e a outra metade depende de nós mesmos, mas tão-só de nós mesmos.
Sem ser interrompida pela doutora continuou a passada
– Lembras daquele tempo em que eu e a falecida Guta insistíamos para que fôssemos às Tiras Pratas, ao Ponta Neto, a Hatch M’bida no espectáculo do N’kasa, e você sempre recusava por não ter roupas de gala, e nem sequer aceitava tomar emprestada as minhas saias plissadas, ou o meu “mingón bico”. E que as monótonas desculpas suas foram sempre amanhã tenho um mar de afazeres e, ou a N’na está doente devo cuidar dela e, ou esquecem que amanhã temos chamada escrita ou oral. E nós sem estudar sempre apanhávamos boas notas, claro que da nossa maneira.
E até nós sugeríamos mostrar-lhe como facilmente fazer muito dinheiro e estar na moda.
Os mais porreiros gatos corriam atrás de mim e da Guta (que está no outro mundo) porque nós éramos as mais curtidas badjudas do Kwame Nkrumah.
Lembras do Maneli? Esteve em Lisa, foi deportado e agora o gajo futiu. Que sorte malvada? A vida dos gajos e badjudas curtidos virou ah!....
....Olha só em você como é que estás toda pomposa de gargantilhas e pulseiras doiradas. Olha só em mim, magra como cachorra doida e, esta afêteré que em mim pendura como se num cabide. Mas será que esta é a nossa sorte? Será que se eu não abandonasse o estudo no oitavo ano, seria esta a minha sorte?
A Dra Éden que passou minutos a fios abanando a cabeça em silenciosa concordância com o amistoso desabafo cortou o discurso da outrora pueril amiga.
– Anura! A nossa vida tem um só destino final e há múltiplos caminhos p’ra atingir o desejado. Você escolheu (não digo o mais fácil) o mais sinuoso e traidor atalho que te conduziu a um beco sem saída ou seja à uma ilusória felicidade. Eu escolhi podar, capinar, esgravatar, lançar sementes, mondar, vigiar e recolher. Por outras palavras eu escolhi o suor da minha testa p’ra o tempero da minha vida. Por outras palavras, você escolheu lançar pedras as mangas verdes impedindo que as flores frutifiquem.
A arrependida desatou a lacrimar. Aproveito da palavra de um escritor maior que eu, que disse chorar faz bem a alma. Mas, será que essas lágrimas é o real preço da desfrutada sabura?
Nada podemos fazer para voltar o tempo, mas tudo podemos fazer transmitindo esta estória aos nossos filhos, netos dizendo-lhes que a nossa vida é curta e cada segundo, minuto, hora, dias e anos deve ser vivida dentro daquilo que é a razão da nossa criação e existência.
(DJOMBOKILIN)
Moscovo, 23/12/2005
..............................
bidera – vendedeira
espera afêteré – uma espécie de vestido de cortes simples
anda cabaz – cerimónia papel (etnia) na qual se leva à cabeça cabaça
tchon – chão; coisas de terra
mingón bico – sandália plástica de bico agudo nos meados de ano 80
sabura – luxo, alegria, sabor, saboroso/a, bonito/a (muzika sabi)
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quarta-feira, abril 26, 2006
Manuel da Costa* e o "Olhar de Mulher"

Por: Homem de Olveira Carvalho
Olhar de Mulher uma miscelânea de poemas sobre a mulher sobretudo africana dedicada especialmente sobre mulheres guineenses e angolanas num trabalho oficioso celado pelas mãos sublimes do guinense Manuel da Costa e do angolano Mário António Ernesto, sob chancela da editora Contra-Regra (2001).
Homem de Olveira Carvalho
Olhar de Mulher
Sedutor
poderoso
quando pisca e corteja
hipnotiza
Vencedor
quando irradia
faz melodia
de bem -fazer
quando energiza
diviniza
Casa sem mulher
casa não
homem sem mulher
homem vão
Dia sem mulher
dia sombrio
mundo sem mulher
mundo sem pio
Cultura sem mulher
cultura vadia
terra sem mulher
terra vazia
Olhar de mulher
olhar de emoções
entre prazeres e paixões
seduzir e convencer
Faz homem viver
regenera e cria
faz vida ser
mãe que tudo afilia
Olhar de mulher
olhar para acreditar
ver para querer
viver para amar
Manuel da Costa
Casal da Serra, 22 de Setembro de 2006
--------------- -----------------
*Manuel da Costa
(poeta, engenheiro agrónomo e oficial do Exército)
Nasceu a 6 de Maio de 1965 na Guiné-Bissau.
Em 1983 ingressou nas fileiras da JAAC( Juventude Africana Amílcar Cabral).
Trabalhou no Ministério de Informação e Telecomunicações.
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Ndongle Akudeta
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sábado, abril 15, 2006
Tuada di djambadon

Boka moladu pa simola moskia-moskiadu
paki liti korta fala ku siti
gardisimenti malbensidu
rabata-rabata faimadu ba dja
kiston di fia i un negosio di mampasada
mama mainadu
kil ku djuntadu na armondadi
padasia-padasiadu garan garan
kinhon ki di povu sabodja-sobojadu aula-ula
'ma amanha falsia disna di ontordia
na djunda-djunda di aonti ku aos
na moransa di djitu-ka-tem kau kala iem
udju rabata tuada di djambadon
oredja na tchebeta mukur mukur
kinoba ku kamba boka distranha
*****
Kerensa

Na brinkadera di "toca-foge"
n' dau bu ka tornan
alin sikidu tras di kasa
bin pa n' kudjiu - nha obu di tchoca!
mentu pa es dinoti tchuba kai
no mbala na tchikini-tchikini
asin amanha pata di ladron
ta bin sintidu na San Djon
na kaminhu ku manhoka farfari -
seja son pa n ka kai tchai
n' ta n'uliu pardeus suma
badjudesa di nha mame -
nha Koni di gan Kamara
"Os di bon mesa
na muntudo di koitadi"
-ai lisbueta na bnhale!
Amanha sin bai pista mantchadu
pa iran-segu ka bin burfan
mpina kabesa na balai
iurumbudura pul aparti
arrus limpu - bu kuku di udju
liti durmidu di baka k'n bakia
anti di bu pape mara kasamenti...
Djidji si i ten pa rii
tchia si kosau sarna
mara pitu si iardiu korson
si i mabo kabesa tofodja lens
si i ka mpatchau purtchi
si i ka melau bejan na boka
ma nha nomi ka deus nganau!
Amanha si nha obu intchi kalsa
nta mandurga ku mburta di kabás
kum di tudu koldadis di kana
wiski vodka ku kola suma mansa
pa n diklarau pa m pembiu na nha ragás
18:40 29-06-2003
Ndongle Akudeta
In Sombra di Lakakon
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Ndongle Akudeta
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sábado, abril 15, 2006
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Kil bu djindjirba

16.05.01 - 24.06.01
kil bu djindjirba
ku ta fasin
fidi-lifanti
na nheme karus
bu kalkanhada
po di findi
i mantchadu
di patchi nha korson
na pedra di kunfentu
kil bu udju
mar di liti
ki n ta mbugudja nha siti
kontan
si n ka mersi
djamu bu tadju
nha djidiundadi
ta bai nkanta
fundu di mar
Ndongle Akudeta
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Ndongle Akudeta
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sábado, abril 15, 2006
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quinta-feira, abril 13, 2006
Ela está triste

ela está triste
sei-o de cor
o meu coração
sabe ler o odor
de um sentimento
dilacerado
ao além do portão
e tão loucamente
então
me disse
o amor
resiste
perante um sonho
resignado!
Lisboa, 30.12.03
Adão Quadé
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Ndongle Akudeta
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quinta-feira, abril 13, 2006
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Uirtute

a vida é perfume sem cor
cheiro em ciúmes com o odor
construir castelo na areia da praia
é sol de pouca dura
primavera ainda não conseguiu vencer o inverno
estamos a alimentar o tubarão
na agua onde nadamos
que um dia há-de nos engolir a todos
cá por este lado há harmonia
estou on-line nesta nave do transcendente
o espaço é espaçoso para negociar a paz
vê-se nesta nave cores de todo o mundo
a bola afinal é redonda por aparência
dá ânsia de poupar aqui urnas aqui atrás
onde pausadamente o corpo se jaz
fio da alma atada em nós de bamba apodrecida
sarampo no meio da neve é adiar o esquiar
e o inverno toma textura da sua própria manta
arrepia o sol a lua acende a lanterna
vagueia na nuvem rebanho de carneiros
aquela escada equinocial ares amotinados
regressam alegremente enlutados de branco
da fúnebre missa do tempo sepultado sem campa
evocamos o requiem para o repouso dos infiéis
pois abastados os famintos - farinha do mesmo saco
cabemos todos na Arca da despersonalização
absorvida em alameda de flores ...
tenho agora uma nova atitude para com a comunidade
um recipiente onde não cabem todas as virtudes
sou rebelde não por natureza mas ante a sociedade
carrego a bandeira com cores contra tudo
até à lassitude que opera nas entranhas da juventude
3:25 20-02-2003
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Ndongle Akudeta
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quarta-feira, abril 12, 2006
passaporte do coração...

De repente o telefone tocou
do outro lado do portão...
pediram-me
o passapote
do coração
como se lenitivo
para sanar
a irresponsabildade
de um amor estagnado
no patamar do distanciar
há uma onda de telepatia
a ignizar no firmamento
não sei se tenho que
responder
pela mesma moeda
ou fingir que já é outro dia
no amor existe esta teia
de disentendimento
que se desfia
lentamente
na tela feita de veia
até
se deluir
no labirinto
do coração
a pura arte
do amar
fingindo
nó do sofrimento
atado no cotovelo da lua
Coração
cidadão
clandestino
guiado pelo sopro desatinado
da flauta do destino
Passaporte
perguntem
ao vento
(sei lá se o tem!)
Adão Quadé
12.04.2006
P.S:
São 07:48 da manhã e peço o silêncio
e... entre os livros empoleirados no pó das prateleiras
encontro um de poesia intitulado Passaporte do Coração,
de Ana Mafalda Leite, onde se lê em voz alta volitanto com"As asas sem rumo"
pergunto-me
que passaporte é necessário para chegar ao coração
que visto ou certificado que senha ou passe
a que abracadabra
ou que carimbo mágico
acendem os círculos
acham a sua terra
terra prometida
atlântida e sonho
eu que tenho asas e vou sem rumo
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A.Quade
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quarta-feira, abril 12, 2006
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EXPOSIÇÃO ARQUIPÉLAGO DOS BIJAGÓS

A exposição é constituída por fotografias de diferentes formatos (fruto da selecção do trabalho dos fotógrafos profissionais, Jean François Hellio e de Nicolas Van Ingen – que passaram dois meses com os bijagós), e de vários objectos representativos da cultura e religião bijagó.
MNHN – Rua da Escola Politécnica, nº 58, 1269-102 Lisboa
Acessos: Metro do Rato, autocarros carris nº 58, nº100, nº6, nº9, nº27, nº38 e nº49
Horário: Seg a sexta das 10h às 13h e das 14h às 17h / sábados das 15h às 18h
ORGANIZAÇÃO: CIDAC - Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral
Sob a coordenação de Joacine Moreira
EM COLABORAÇÃO COM:
MNHN - Museu Nacional de História Natural
IMVF - Instituto Marquês de Valle Flor
AEGBL - Associação de Estudantes da Guiné-Bissau em Lisboa
PATROCÍNIO:
CML - Câmara Municipal de Lisboa
IMVF - Instituto Marquês de Valle Flor
Para mais informações contactar Joacine Moreira (Coordenadora da Exposição):
email:http://by17fd.bay17.hotmail.msn.com/cgi-bin/compose?mailto=1&msg=MSG1144803395.5&start=1911563&len=11643&src=&type=x&to=cidac@cidac.pt&cc=&bcc=&subject=&body=&curmbox=F000000001&a=1410fdfcbdd90efaf1fe39aa399b7cac06d0c753f4296cece7282b09594d3479 /Tel: 213172860 /Fax: 213172870
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quarta-feira, abril 12, 2006
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quarta-feira, abril 05, 2006
Indicador furtivo

o meu indicador
é furtivo e destro
como que uma faca
balanta
quando se levanta
é deveras
um bom atirador
ao alvo nunca falha
esta minha navalha
herdada de tantas batalhas
e vou ao combate
na escuridão
entrincheirada
na gruta da palavra
grávida
sem nenhuma
espingarda
na linha
da vanguarda...
e me clamam: vate!
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Ndongle Akudeta
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quarta-feira, abril 05, 2006
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NOMI DE KASA
(Guiné-Bissau)
Já que a cultura é um domínio vasto, não admira tratarmos deste tema assinalado em epígrafe. Contudo, a sua dissertação, embora feita a correr perante outros tantos problemas culturais a resolver, não seria hoje possível sem a feliz estada do prof. Dr. Hildo Honório do Couto, lingüista, por Bissau em outubro/90 no quadro da sua já tradicional deslocação à Guiné-Bissau e comunicações no mesmo país desde há uns anos.
Na Guiné-Bissau, nome di cassa (ou nome de cassa, nome de kassa, nomi di kasa, tendo um conta a ortografia ainda existente), é uma apelidação dada à criança enquanto pequena. Mas à medida que cresce, a situação evolui depois para várias direções.
a) Ou perde o nome logo após a fase de bebé: "bébé"; "bébézinho" ou "nené" (nenezinho, etc.). Portanto, o nomi di cassa (n.c.) fica na infância da pessoa.
b) Ou acompanha o miúdo nas suas andanças de menino "bulidur", "manso", etc., podendo ou não ultrapassar esta fase. Por conseguinte, em alguns casos permanece crescendo com o indivíduo, pelo que pode ultrapassar ou conhecer, sucessivamente, as seguintes faixas etárias de:
- infâcia
- adolescência
- juventude
- adulto
O n.c. é usado tanto no contexto familiar como no comunitário. Porém, pode atingir um espaço cultural enorme, isto é, maior do que o anterior como espaço da criança em referência. Consoante a evolução, o n.c. pode distar muito dessa origem, atingindo a escala nacional e internacional.
O n.c. tanto pode ser derivado de um dos nomes próprios do baptismo (católico, islâmico) da pessoa, como ter certas origens, a saber:
- Temporal (por exemplo: "Média", que significa Meio-Dia), e
- Circunstancial (ou de cariz histórico, social, político e sociocultural, mágico-religioso, comportando carga de ditos populares, indicadores ou marcos culturais) de uma dada comunidade num dado momento histórico dessa mesma comunidade ou sociedade.
- Média, Murido, Negado, N'dingui, Bai-Fas (ou Faxi:Vai-Depressa). Abó-que-bim (tu é que vieste ou voltaste de novo, reencarnação: quando a mãe perde filhos...), Hóspri (hóspede - idem de N'dingui, Abó-que-Bim), Djédje, Djédjé ou Djódje (de Jorge, por exemplo), Du, Dudu, Didi, Pipi (de Pedro), Zé, Zézé, Zézinho, Quim, Quim-Quim, Quinzinho, Liisinho (de Luís), Tó, Toy, Tony (de Antônio), Fico (de Francisco), Chico (de Francisco), Meno (de Filomeno), Filó (de Filomena), Tuya (origem caboverdiana), Nelo (de Agnelo), Né ou Neya (de Inês), Ova (de Osvaldo), Nino, Nónó, N'cudji (eu achei: encarnação), Bim-Par-Bai (vir e pronto para partir - encarnação), Bedja (Velha), Bedjo, Nobo (Novo), Mica(s), Neco, Necas, Lalau (Ladislau), Mando (Armando), Nando (Fernando), Nanda, Nandinha (Fernanda), Manecas, Filas, Gundas, Duco, Fico, Djon, Djon-Djon, Jó, Juca-Pires, Tchom-Tchom, Feia, etc.
Existem, pois, na Guiné-Bissau, nomi di cassa, nomi de toroça, nomi de manjuandadi ou colegação (certos grupos restritos auto-organizados com base na faixa etária, sem discriminação de sexo). Um fenômeno curioso: embora aconteçam em menor escala, há casos de herança de nomi di toroça. Aqui é que a situação se torna complicada e embaraçosa para a pessoa alvejada: o n.t. passa automaticamente (não por via biológica, matrimonial ou baptismal, em termos oficiais ou tradicionalmente e oficialmente reconhecidos) de pai para filho ou de irmão mais velho para irmão mais novo. Esta investidura é, de facto, "violenta" psicologicamente, porquanto tenta às vezes (se não na maioria dos casos) atingir a pessoa, pois é uma investidura decidida, por um lado, da parte dos colegas de "detentor(es)" do nomi de toroça, e, por outro lado, da parte dos colegas "empossados". Na Guiné-Bissau, esses nomes ainda hoje ferem bastante a susceptibilidade dessas pessoas:
TÊM QUE SER USADOS SÓ POR COLEGAS OU AMIGOS ÍNTIMOS E EM LOCAL RESTRITO ("privadamente privado").
Esses nomes quase que assumiram conotação ou ligação histórica e eterna (carne e osso) e com essas pessoas ainda vivas no país, e em Bissau.
Mas, para ter uma idéia, eis alguns nomes de toroça de carácter genérico, bastanto abstracto e muito longe dos nomes de toroça já encarnados: Secu-Secu (Magricela), Cumprido (Alto, Comprido), Pó-Ferro (Pau-Ferro), Badjungo-Fero, Rapá-Garandi (Rapaz Grande). Há ainda os nomes indirectos e impessoais: Manga-Fulano, Estin, Dona-Cassa, Noiba-Nobu, etc.
A nossa situação e instinto de observação impelem-nos a avançar estes dados provisórios até a confirmação da estatística real, na Guiné-Bissau:
- Percentagem aproximada de nome di cassa (já agora, dando boléia ou "carona" aos nomes di toroça, mandjuandadi, etc.), a nosso ver, é de:
- Falantes de português-crioulo ................... 70%
- Falantes de crioulo .................................... 75% a 80%
- Falantes de línguas étnicas:
a) islamizadas e animistas: manjacos, mancanhas, papéis, fulas, mandingas, beafadas, etc: 50%; b) balantas ............................................. 100%
(Entre estes últimos cada nome é um nomi di cassa e é um dito ou adágio).
Resumindo e começando a conclusão (em vez de "concluindo"), pode-se afirmar que, na Guiné-Bissau, cada pessoa enquadrada neste esforço de reflexão, e talvez mesmo aquelas que ficaram fora das porcentagens, têm em média 2 ou 3 nomes. O nome oficial é quase inexpressivo, isto é, não de utilidade diária. Apenas em atos oficiais, solenes ou de "prisão perpétua" do dedo que recebe o anel ..... COITADINHO(S).
Pois é, há casos de indivíduos contendo até mais de ma dúzia de nomes.
Outro fenômeno curioso: os n.t. podem, quando manipulada a mentalidade do meio pela pessoa visada, ser transformados em nome di ronco (nome de exibição, de glória, de identidade, de afirmação social, máscula, etc., etc.). Há locais e circunstâncias que também dão nomes. Podemos encurtar ou "adquirir" (querendo ou não) nomes:
- Na escola
- Nas atividades lúdicas (desporto, natação, etc.)
- Nas atividades de lazar (comemorações, festas, etc.)
Na Guiné-Bissau existem personalidades famosas que têm n.c. Aliás, conservaram o n.c. Ou, ainda melhor, o espaço cultural, a comunidade, o(s) bairro(s) e a sociedade inteira (a nível da afirmação velada no subconsciente coletivo nacional) passou, portanto, a exigir. É taxativo!!! Senão a pessoa "perde-se". A gente não sabe.
Nino Vieira (João Bernardo Vieira - Presidente da República)
Thico Té (Francisco Mendes)
Ova (Osvaldo Vieira)
Abel Djassi (nome de guerra de Amílcar Cabral).
Ah! Não esqueçamos que alguns nomes têm que ser pronunciados em bloco: Victor Saúde Maria ou Victor Freire Monteiro.
___________________
*O autor é jornalista, escritor e investigador do INDE (Instituto Nacional para o Desenvolvimento da Educação).
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quarta-feira, abril 05, 2006
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Galissá o MESTRE DO KORA
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Ndongle Akudeta
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quarta-feira, abril 05, 2006
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sábado, abril 01, 2006
CONVERSA AMENA
Manuel Pedro Pereira, Jr."Djombodikilin"
Era uma vez …
Era uma vez na rua Porto travou-se uma conversa amena entre a mãe e o filho.
– Bem! Será que tu pensas? – perguntou a mãe ao filho de seis aninhos.
– Claro que penso? – respondeu o filho
– Mas o que é que tu pensas? – indagou a mãe curiosa para partilhar do pensamento do filho
– Penso se amanhecerei vivo e, ou se haverá de comer – respondeu o filho sem muito meditar.
Realmente o menino pensa. Que brilhante pensamento de uma crança de seis aninhos de idade. Este é dos primitivos racciocínios do Homem e nem toda a criança assim pensa.
Na sequência do dito diálogo deprendia-se o seguinte, aliás é a vez do filho questionar a mamãe.
– Mas mãe, porque é que tu sempre me pressiones a ir à escola? Será que na escola dão a gente sacos de arroz ou dinheiro? – perguntou o filho à mãe.
– Sim, tu não sabes disso? – respondeu a mãe interrogando.
– Não. Não sei.
– Na escola te dão tudo. Saco de arroz, dinheiro, bom trabalho, mulher, carro. Mas tudo mesmo.
– Mamãe! Mas tu não andaste na escola. E, então como é que de tudo isso sabes? – interrogou o pequeno – Eu não vi ningém que da escola recebeu arroz e dinheiro – continuou ele.
– Olha se andares na escola vais ser doutor, engenheiro ou especialista. Sendo um formado vais ter um bom emprego, uma casa linda, carros, mulher amada e filhos, resumindo vais ter um boa vida.
A puéril questão como de tudo isso sabes se na escola não andaste, encheu o olhar da Dona Tite de lágrimas.
– Sim, não andei na escola. – deu uma pausa, contendo as gotas que temem a chover do céu dos olhos p’ra depois continuar. – É uma longa e dolorosa estória. Olha o meu pai andou na escola, ele fez a quarta classe colonial, foi lavrador, carpinteiro, foi uma pessoa de bem naquela altura. Através dos familiares sabiávamos que tínhamos uma conta que não se sabe-se o paradeiro no banco. Éramos quatro duas fémeas e dois machos das duas mães amigas e «kumbosas» [1]. Cada mulher um filho e uma filha.
Já muito doente o papai deixou ou indicações ou testamento que filho p’ra que familiar deve ir na «kriason» [2].
Eu calhei–me à um familiar paterno à uma tia que mandava na escola os filhos dela e meus irmãos de criação por estes terem os pais vivos e, entretanto a mim reservava os afazéres domésticos. Supliquei–a que também queria andar na escola mas em vão. Dentre outras as minhas duras e puéris tarefas quotidianas se resumiam a cozinha, a costura, e «bida» [3] para ajudar com a mão em casa. Insónias, maltratos. Primeiro a acordar começando o dia com varrer, passar pano no chão, limpar e arrumar e, último a dormir depois de estender a cama, descer a tenda e apagar os candeiros. Lembro–me de episódios tristes como por exemplo de estar de pé quando almoçavam a mestra e o marido dele quer dizer era eu o último a almoçar. Assim como de muitas vezes que se esquecia de tirar a bácia de cama em mim é vazado o chichi alí contido.
Nem o meu cão desejo ver no criação. Por isso estude, trabalhe e progrida. Tudo faço e farei p’ra o teu bem – beijou o filho na testa e demoradamente abraçou–o.
FIM
Moscovo, Quarta-Feira, 22.02.2006 13h
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[1] Kumbosas – rivais, as mulheres de um homem
[2] Kriason – criação: educar criança alheia
[3] bida – vida, vendas; fazer bida – vender, fazer negócio
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FRASE & REFLEXAO
«Bida pa bida – negócio é negócio»
Guilhermina Da Silva
Manuel Pedro Pereira, Jr.
(Djombodikilin)
Moscovo, Quarta-Feira, 25.02.2006, 20 horas
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Ndongle Akudeta
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sábado, abril 01, 2006
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