Manuel Pedro Pereira, Jr."Djombodikilin"
Era uma vez …
Era uma vez na rua Porto travou-se uma conversa amena entre a mãe e o filho.
– Bem! Será que tu pensas? – perguntou a mãe ao filho de seis aninhos.
– Claro que penso? – respondeu o filho
– Mas o que é que tu pensas? – indagou a mãe curiosa para partilhar do pensamento do filho
– Penso se amanhecerei vivo e, ou se haverá de comer – respondeu o filho sem muito meditar.
Realmente o menino pensa. Que brilhante pensamento de uma crança de seis aninhos de idade. Este é dos primitivos racciocínios do Homem e nem toda a criança assim pensa.
Na sequência do dito diálogo deprendia-se o seguinte, aliás é a vez do filho questionar a mamãe.
– Mas mãe, porque é que tu sempre me pressiones a ir à escola? Será que na escola dão a gente sacos de arroz ou dinheiro? – perguntou o filho à mãe.
– Sim, tu não sabes disso? – respondeu a mãe interrogando.
– Não. Não sei.
– Na escola te dão tudo. Saco de arroz, dinheiro, bom trabalho, mulher, carro. Mas tudo mesmo.
– Mamãe! Mas tu não andaste na escola. E, então como é que de tudo isso sabes? – interrogou o pequeno – Eu não vi ningém que da escola recebeu arroz e dinheiro – continuou ele.
– Olha se andares na escola vais ser doutor, engenheiro ou especialista. Sendo um formado vais ter um bom emprego, uma casa linda, carros, mulher amada e filhos, resumindo vais ter um boa vida.
A puéril questão como de tudo isso sabes se na escola não andaste, encheu o olhar da Dona Tite de lágrimas.
– Sim, não andei na escola. – deu uma pausa, contendo as gotas que temem a chover do céu dos olhos p’ra depois continuar. – É uma longa e dolorosa estória. Olha o meu pai andou na escola, ele fez a quarta classe colonial, foi lavrador, carpinteiro, foi uma pessoa de bem naquela altura. Através dos familiares sabiávamos que tínhamos uma conta que não se sabe-se o paradeiro no banco. Éramos quatro duas fémeas e dois machos das duas mães amigas e «kumbosas» [1]. Cada mulher um filho e uma filha.
Já muito doente o papai deixou ou indicações ou testamento que filho p’ra que familiar deve ir na «kriason» [2].
Eu calhei–me à um familiar paterno à uma tia que mandava na escola os filhos dela e meus irmãos de criação por estes terem os pais vivos e, entretanto a mim reservava os afazéres domésticos. Supliquei–a que também queria andar na escola mas em vão. Dentre outras as minhas duras e puéris tarefas quotidianas se resumiam a cozinha, a costura, e «bida» [3] para ajudar com a mão em casa. Insónias, maltratos. Primeiro a acordar começando o dia com varrer, passar pano no chão, limpar e arrumar e, último a dormir depois de estender a cama, descer a tenda e apagar os candeiros. Lembro–me de episódios tristes como por exemplo de estar de pé quando almoçavam a mestra e o marido dele quer dizer era eu o último a almoçar. Assim como de muitas vezes que se esquecia de tirar a bácia de cama em mim é vazado o chichi alí contido.
Nem o meu cão desejo ver no criação. Por isso estude, trabalhe e progrida. Tudo faço e farei p’ra o teu bem – beijou o filho na testa e demoradamente abraçou–o.
FIM
Moscovo, Quarta-Feira, 22.02.2006 13h
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[1] Kumbosas – rivais, as mulheres de um homem
[2] Kriason – criação: educar criança alheia
[3] bida – vida, vendas; fazer bida – vender, fazer negócio
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FRASE & REFLEXAO
«Bida pa bida – negócio é negócio»
Guilhermina Da Silva
Manuel Pedro Pereira, Jr.
(Djombodikilin)
Moscovo, Quarta-Feira, 25.02.2006, 20 horas
sábado, abril 01, 2006
CONVERSA AMENA
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sexta-feira, março 24, 2006
MISS LUSO-GUINEENSE 2006
Um evento que só se tornou possível graças aos apoios e protrocínios da PUZZLE, da Black And Beautiful, da Garota Carioca, da RDPÁfrica,da Sanjam Cabeleireiros, da revista África Lusófona, da Discoteca Balafon e da Discoteca Glamour.
Dentre os vastos números das meninas inscritas foram selecionadaas 17 lindas meninas de idade compreendida entre os 17 e os 25 anos. São elas :
• 1 - Djamila
• 2 - Judite
• 3 - Hadisa
• 4 - Soraia
• 5 - Andreia
• 6 - Tatiana
• 7 - Carla
• 8 - Girai
• 9 - Elisabete
• 10 - Siumara
• 11 - Ericardina
• 12 - Lídia Silva
• 13 - Isabel
• 14 - Sissy
• 15 - Samarise Brbosa
• 16 - Djenabu Baldé
• 17 - Hékata
Depois dos desfiles de apresentação, de traje africano, de bikine e do vestido de gala, foram selecionadas, escolhidas, as Miss Simpatia e Fotogenia:
• 10 - Samrise Barbosa - > Miss Simpatia
• 6 - Tatiana -> Miss Fotogenia
De seguida as 5 para a final:
• 3 - Hadisa
• 4 - Soraia
• 8 - Girai
• 10 - Siumara
• 11 - Ericardina
Após as perguntas feita pelos apresentadores Miriam Morais e Carlos (RTP) e as respostas das candidatas, os juris escolheram as 3 premiadas:
• 3 - Hadisa -> 2ª Dama
• 10 - Siumara -> 1ª Dama
• 11 - Ricardina -> Miss Guiné-Bissau em Lisboa 2006
Como forma de reconhecimento e de incentivo ao evento que na comunidade guinense é inédito, é de louvar a organização pelo gesto que fizerem em conceder à vencedora da Miss Luso-Guinense 2006 uma viagem (ida e volta) a Bissau cm despesas incluídas.
O espetáculo teve a patente dos Tabanka Djazz, do grupo de" mandjuandade" Bambaran (Toni Osvaldo) e do mestre de Korá, o grande "djidiu", o imcomparável José Braima Galissá acompanhado pelo maior percussionista palopiano e humorista, Kabum.
Chama-se a atenção dos guinéfilos, os amigos da moda e da beleza da Guiné que não tiveram a opurtunidade de assistir ao espetáculo ao vivo , de que merecem um bónus de assistência gratis do eveto através da transmissão televisiva na RTP ÁFRICA no próximo Sábado dia 25 de Março às 21:15.
Com saudações fraternas
Ndongle Akudeta
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terça-feira, março 21, 2006
Djambadon di Mandurgada

Ndongle Akudeta
alma ku bai seu fala mantenha
udju mburgudja na fonti
fiu di kabelu na djugudjugu
kankuran na disi pe di polon
fala ku malgosadu fidi lifanti
na kumbu di silensiu
Poesia mbosanta po di kurpu
sintidu djunki gargadjada
di flur di tautau
djamburere salta bantaba
sai ronkanta noti badjuda
kudadi dentru di mi
na kangaluta
korson na ndunsia
djambadon
tambur na un tuku mudu
pe na tchon
silensiu na tchebeta
badju di dun di matu
lambe mborka
mandrugada na badjanta kabas
palabra torna homi dun di si naris
alma ku bai nuben bias
fala mantenha
23.01.06 16:30
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terça-feira, março 21, 2006
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Ave Primavera

A.Quadé
hoje
pela manhã
qual amanhã
que tal ontem
já não me lembro
salve primavera!
na copa
de um pinheiro seco
festejo neste beco
com a vela do sol
aniversário
de um poema
imaginário
a (re)nascer
20.03.01 02:39
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terça-feira, março 21, 2006
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A LUTA

Vasco Cabral
a luta
é a minha
primavera
sinfonia de vida
o grito estridente dos rios
a gargalhada das fontes
o cantar das pedras
e das rochas
o suor das estrelas!
a linha harmoniosa dum cisne!
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terça-feira, março 21, 2006
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Poemar*

Tony Tcheka
fui à escrita
poemar
um flirt com a poesia
uma paixão gerada em sílabas
prenhes de ternura
o corpo não cede ao fogo
resta a poesia
e sou mais eu em ti
no presságio a palavra
palavra, que lavra
em safras de ardoamor
apocalipse de corpos
em procissão de amor
no lusco-fusco do crepúsculo
me encontro
vejo o fogo
nascer do iceberg
do teu corpo-mármore
a poesia ocorre
em plasmas de amor
vem com o calor-vermelho
que invade o corpo em corpo
em cortinas de suor
e fleuma do teu corpo
libertando ternura sonegada
em suspiros de madrugada morena
que pétalas de feitiço-crioulo
acalentam em seivas de amor
*in Antologia Poética da Guiné-Bissau, Editorial Inquérito, Lisboa,1990
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Aos Poetas

poeta
a vida
é o melhor
poema
faz do verso
a charrua
de mil braços
queremos ver a terra fecundada
Vasco Cabral
1960
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terça-feira, março 21, 2006
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Dia Mundial da Poesia
A poesia ocupa, entre as diferentes formas de expressão humana, um lugar importante e particular. Seu estatuto de disciplina à parte da literatura é, por certo, reconhecido desde as origens. Os bardos dos tempos antigos exprimiam-se frequentemente por essa construção ritmada de palavras.
Mas a poesia é mais do que um género literário, rígido e codificado; ela é a base de todas as outras formas de expressão literária e artística. Não se diz de um romance, de um quadro, de uma composição musical, de um filme, que eles são poéticos?
A poesia é pouco exigente: uma voz ou uma folha de papel bastam para dar-lhe vida. Nós a encontramos em todos os tempos e em todos os lugares, prova de sua universalidade e de sua natureza transcendental.
Reconhece-se uma cultura por seus poetas porque eles conseguem dar forma concreta aos mais secretos de seus impulsos, aos mais íntimos de seus sonhos e de suas esperanças compartilhadas.
Mas a poesia é igualmente um meio incomparável para a compreensão intercultural. Seu aprendizado, desde a mais tenra idade, ajuda o indivíduo a formar sua sensibilidade, a aprofundar sua apreensão da complexidade do mundo, a compreender o outro por meio do refinamento da arte e a dar segurança aos seus passos no caminho da vida.
A UNESCO tem desenvolvido, desde a sua criação, um programa de tradução de obras poéticas do mundo inteiro a fim de torná-las acessíveis ao maior número de pessoas e de participar, assim, do diálogo e da compreensão internacionais.
Também por ocasião desta primeira celebração do Dia Mundial da Poesia, convido as autoridades públicas, as associações e a sociedade civil a mobilizar-se para que a poesia reencontre seu lugar tradicional na vida da comunidade e que ela prossiga em sua vocação universal de serviço à diversidade cultural e à paz no mundo.
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Uirtute

a vida é perfume sem cor
cheiro em ciúmes com o odor
construir alcácer na areia da praia
é sol de pouca dura
a primavera ainda não conseguiu vencer o inverno
estamos a alimentar o tubarão
na água onde nadamos
que um dia há-de nos engolir a todos
cá por este lado há harmonia
estou on-line nesta nave do transcendente
o espaço é espaçoso para negociar a paz
vê-se nesta nave cores de todo o mundo
a bola afinal é redonda por aparência
dá ânsia de poupar aqui urnas aqui atrás
onde pausadamente o corpo se jaz
fio da alma atada em nós de bamba apodrecida
sarampo no meio da neve é adiar o esquiar
e o inverno toma a textura da sua própria manta
arrepia o sol a lua acende a lanterna
vagueia na nuvem rebanho de carneiros
àquela escada equinocial ares amotinados
regressam alegremente enlutados de branco
da fúnebre missa do tempo sepultado sem campa
evocamos o requiem ao repouso dos infiéis
pois abastados os famintos - farinha do mesmo saco
cabemos todos na arca da despersonalização
absorvida em alameda de flores ...
tenho agora uma nova atitude para com a comunidade
um recipiente onde não cabem todas as virtudes
sou rebelde não por natureza mas ante a vaidade da sociedade
carrego a bandeira com cores contra tudo
até à lassitude que opera nas entranhas da juventude
Adão Quadé
3:25 20-02-2003
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Dia Mundial da Poesia

A 30ª sessão da Conferência Geral da UNESCO proclamou o dia 21 de Março como o Dia Mundial da Poesia e determinou a cada escritório regional que as comemorações sejam em escala nacional e internacional.
As actividades comemorativas devem ser organizadas por sociedades de poesia ou de escritores e poetas, jornais, periódicos especializados em cultura, literatura e artes, editoras que tenham colecções de poesia, teatros e casas de shows, especialmente em transmissões de rádio e TV, escolas e instituições preocupadas com a cultura.
As formas determinadas para comemorar esse dia variam de leituras públicas à concessão de prémios de poesia. Ainda para este ano a UNESCO pretende organizar competição internacional de poesia para alunos de ensino fundamental e médio, contando com a cooperação do projeto de Escolas Associadas da entidade.
Os poemas devem ser escritos de acordo com o estilo de um poeta nacional ou internacional cuja lembrança, data de nascimento ou morte estejam sendo comemorados. Os poetas deste ano podem ser, por exemplo: Jorge Luis Borges (Argentina), Nicolás Guillén (Cuba) ou Amadou Hampâte Bâ (Mali).
Entre os objetivos da iniciativa da UNESCO está o incentivo e reconhecimento da poesia regional, nacional e internacional, e desencadear processo que deve servir para apoiar a diversidade lingüística e cultural, utilizando a expressão poética, e oferecer a línguas ameaçadas de extinção a oportunidade de serem ouvidas na comunidade internacional. Ainda de acordo com a Conferência, o dia deve começar a ser celebrado a partir deste ano, e a possibilidade de ser a data de abertura das Olimpíadas Culturais, que acontecem e Delphi (Grécia), em 2001, ainda está sendo estudada.
Como o dia 21 de Março já é dedicado à eliminação de qualquer forma de preconceito, pode-se considerar uma associação dos temas para a comemoração.
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sexta-feira, março 17, 2006
A língua e os nomes na Guiné-Bissau *

Odete Semedo**
Na Guiné-Bissau, tal como em muitos países de África, as línguas são muitas porque os grupos étnicos são vários, possuindo cada um a sua língua. Porém, no caso específico do meu país, para além das línguas usadas por cada um dos grupos étnicos, existe uma língua franca falada por cerca de 70 por cento da população de todo o país, o crioulo de base portuguesa, e uma língua oficial utilizada na administração e no ensino, o português, dominado por cerca de 12 por cento da população guineense.
Esta realidade linguística da Guiné-Bissau vê-se logo que um bebé nasce: às vezes, mesmo antes da sua nascença, a preocupação dos pais é se será menina ou rapaz e qual o nome a dar ao futuro hóspede.
Na maioria dos grupos étnicos guineenses a preocupação ou curiosidade é maior em relação ao sexo da criança, porque, no que respeita ao nome do recém-nascido, as circunstâncias em que o bebé nascer, a relação entre os pais da criança, a relação da mãe da criança com as suas rivais – em caso dos casamentos políginos –, a relação dos pais com a comunidade, é que ditam o nome.
Por exemplo, na etnia mandinga, a uma criança desejada, muitas vezes é posto o nome de Meta «aquele(a) que é esperado(a) há muito tempo».
A criança de cuja saúde todos duvidam porque a mãe teve uma gravidez difícil, mas que no entanto nasceu de boa saúde – e se se surpreender a mãe a olhar longamente para o filho nos primeiros momentos de vida deste –, pode vir a chamar-se Ntinhina, «estou a ver, mas não acredito no que vejo».
Por vezes, há contradições entre os habitantes de uma aldeia, mas embora de cunho doméstico, muitas vezes dão origem a graves conflitos. Quando uma das pessoas envolvidas numa dessas desavenças vier a ter bebé, à criança pode chamar-se Busnassum «deixem-me em paz/parem de falar de mim”» ou ainda Midana «não leve em conta/ releve/jogue tudo para o alto», e todos estes três exemplos referem-se à etnia balanta.
Quando os pais, sobretudo o pai da criança, aspiram a que o filho venha a reinar, ou, ainda, quando os pais pertencem a uma família da linhagem nobre, ao filho pode ser posto o nome de Nassin «chefe da aldeia».
Em circunstâncias diferentes desta última, mas em que, com orgulho, os pais do recém-nascido entendem que a vinda da criança trouxe harmonia em casa e na tabanca, o nome dessa criança pode eventualmente ser Bufétar «amigo/camarada», na etnia manjaco.
Já na etnia mancanha, quando se espera um futuro melhor tanto para a criança recém-nascida como para toda a aldeia, o nome adoptado pode ser Ulilé «há-de melhorar/há-de ser bom».
E, assim por diante, os nomes acabam sendo parte da vida da comunidade e das pessoas que nela vivem. Cada membro da comunidade acaba sendo, através do seu nome, portador de mensagens das contradições, das amizades, dos desejos e das aspirações de que é feita a convivência entre as pessoas duma comunidade. Por isso, «a nossa relação com a vida, o espaço em que essa relação decorre, tudo e todos quantos, em interacção connosco, aí vivem, passam e deixam rastos, acabam por ser a nossa poesia, o nosso desabafo triste ou alegre...»
E nesse desabafo/ Silêncio falante/ Choro cantado/ Querer desconseguido/ Que mais poderá ser a língua senão um instrumento fenomenal de comunicação entre os seres humanos?
E enquanto nós comunicamos, o latim vagueia no português que se fala um pouco por todo o mundo, no crioulo da Guiné-Bissau, no crioulo de Cabo Verde, no crioulo de São Tomé e Príncipe, no papiá cristão do bairro de pescadores em Malaca, em pó pairando no eco da fala das gentes ou diluído no mar onde navegou o substrato dessas línguas e dialectos.
Cf. Língua esvoaçante, in Antologia
* Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas da Guiné-Bissau
** Escritora e investigadora do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas da Guiné-Bissau, para as áreas de Educação e Formação
2003-10-31
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Ndongle Akudeta
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Língua Esvoaçante
Odete Semedo*
A língua nasceu solta e desenvolta. Nasceu virada para fora de si, irmanada com os lábios, os dentes e as cordas vocais que lhe deram a fala, a música, o grito e o silêncio, próprio da caverna onde livremente se encontra enclausurada. A língua serve-se dos olhos, de tudo ao seu alcance e fora dele para, sem papas, testemunhar a nossa relação com a vida. A língua é assim aquela coisa que nos permite, dentro do nosso silêncio, dizer tudo sem nada ter dito. Pois em língua e só nela carpimos os nossos mortos, contamos as nossas histórias e estórias, cantamos as nossas noivas quando rumo à casa do futuro marido deixa para trás a casa que a viu nascer e crescer. E só a língua permite a cada um dizer tudo, menos aquilo que se pensa, num jogo social em que cada um, munido do disfarce que julgar ideal, vai passando pelos círculos que a teia tece.
A língua, essa coisa esguia, nem sempre severa, guiada pela mente, vestida de uma mão ou, por vezes, de apenas três dedos - que podem ser de conversa -, vai dando largas às fantasias e aos sonhos.
A língua, na sua fantasia, tem vestidos: vestidos requintados e com enfeites de lantejoulas; vestidos com contornos de emoção, roupa de mendigo com remendos - mas nada para botar defeito; vestidos com bordados e afrontas que para muitos são heranças que os séculos lhe foram juntando num pé-de-meia. E com todos estes vestidos chega a bifurcar-se em língua do coração, do sentir, da alma e língua de contacto com o resto do mundo. Mas como a dificuldade é um mal dividido pelas aldeias, as línguas não são excepções à regra, lá têm elas o seu estilo de cooperação: a língua de viagens, a do contacto, acaba pedindo emprestadas as roupas de emoção da língua do sentimento; esta por sua vez vai deixando que a língua do sentimento faça uso de suas letras - com a permissão alfabetizada, é claro, de quem dita as regras do jogo.
Apesar de ter nascido solta e desenvolta, livre, ainda há quem pense ser dela o dono policiando no escuro a língua, não vá um mal-intencionado beliscar um acento ou acrescentar uma abertura em lugar incerto ou, ainda, quem sabe?, virgular o que deve ser pontofinalizado. Mas a língua não se importa que a façam voar em vozes e falas, que a enrolem em pergaminhos, folhas simples ou papel reciclado; o certo é que em silêncio ela grita e mesmo quando, inseguros, nela deitamos a mão... questionando... a língua é sempre testemunha.
Em que língua escrever
As declarações de amor?
Em que língua cantar
As histórias que ouvi contar?
Em que língua escrever
Contando os feitos das mulheres
E dos homens do meu chão?
Como falar dos velhos
Das passadas e cantigas?
Falarei em crioulo?
Mas que sinais deixar
Aos netos deste século?
Ou terei de falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem
Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
Ou terei de falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem
Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
E ao longo dos séculos
No caminho da vida
Os netos e herdeiros
Saberão quem fomos
E, assim, as mensagens vão passando porque a língua também vai permitindo, assumindo-se como portador de mensagens, voando nos ecos dos que ainda podem gritar pela liberdade, deslizando nas lágrimas invisíveis dos que apenas com seus olhares denunciam a pobreza extrema.
06/06/2003
* Maria Odete da Costa Semedo nasceu em Bissau a 7 de Novembro de 1959. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Foi Presidente da Comissão Nacional para a UNESCO - Bissau. Fundadora da "Revista de Letras, Artes e Cultura Tcholona". Publicou um livro de poemas "Entre o Ser e o Amar", em Bissau (1996). É actualmente investigadora, na capital guineense, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, para as áreas de Educação e Formação.
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segunda-feira, março 13, 2006
No fundo do canto: Odete Semedo e a poesia pós-98
Moema Parente Augel
(Universität Bielefeld - .Alemanha)
DISSASSUSSEGU DI GUINÉ. LITERATURA GUINEENSE EM TEMPO DE CALAMIDADE
RESUMO
A presente comunicação pretende fazer conhecer algumas das mais recentes manifestações poéticas da Guiné-Bissau, produzidas durante e logo após o conflito armado de 1998/99, como um eco dos sentimentos despertados por aquela guerra fratricida e suas consequências. Escritores como Tony Tcheka, Felix Sigá, Respício Nuno, Huco Monteiro possuem poemas inéditos de grande valor, clamando por urgente divulgação. Pretendo ressaltar sobretudo a novíssima obra de Odete da Costa Semedo, No fundo do canto“, no prelo, com publicação planejada ainda para este ano.
A percepção pessoal ou coletiva sobre calamidades ou momentos extremos de crise tem sido fruto de pesquisas as mais diversas. A literatura nascida durante ou em consequência de um conflito militar ou político, debaixo das dores e dos sofrimentos causados pela fuga ou pelo exílio, durante a vida na clandestinidade ou no estrangeiro, ou produzida sob o medo da censura e apesar do cerceamento da opinião pública é de um valor imprescindível como produto estético e também como sinal de advertência para as gerações vindouras. Na Guiné-Bissau não foram poucos os autores que no passado ou na atualidade fizeram desse tema o cerne do seu labor de escritores.
Odete da Costa Semedo, com o longo poema „No fundo do canto“, traz uma contribuição única no campo da poesia guineense, e não só. A autora reflete o clima depressivo que domina seu país, depois do conflito armado e também no momento atual. Expectativas não realizadas despertam sentimentos que deixam traços indeléveis na coletividade, seus efeitos abalam a autoconfiança e a própria identidade e representam um papel importante na relação entre literatura e experiência. A impotência face ao derramar do sangue inocente, a indignação sobre as destruições causadas pelas armas, a revolta sobre os resultados do desmoronamento do projeto nacional são tematizados em um extenso texto, estruturado em poemas curtos divididos em quatro sequências, em que o crioulo se mistura ao português e elementos da cultura multiétnica guineense emprestam uma grande plasticidade ao contexto.
O que norteia o horizonte simbólico de Odete Semedo não são fatos precisos da história de seu país; não lhe interessou a literalização dos acontecimentos reais. Trata-se bem mais de pinceladas de uma paisagem de pesadelo, uma busca de um novo território depois do dilúvio. O inconsciente, com seus pavores e delírios, envolve o político e o ético em uma produção poética sem igual, em parte lírica, em parte épica, da mais extrema dramaticidade.
Mais do que qualquer outro autor guineense, Odete Semedo trabalhou poeticamente o fenômeno da guerra e suas consequências morais e psicológicas. Entretanto, não se trata aqui de uma escatologia. Muito pelo contrário, seu „desabafo“ evidencia-se como um caminho para a superação das angústias e traumas de uma coletividade, a elaboração dos significados da realidade e um instrumento para a projeção de suas esperanças.
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Ndongle Akudeta
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segunda-feira, março 13, 2006
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