
Por:Moema Perente Augel
Universität Bielefeld
Lembrança e olvido nas literaturas afrobrasileira e guineense
"(...) A recente literatura afrobrasileira resgata a realidade histórica ligada ao processo da escravidão e suas conseqüências, reinterpreta o passado, numa atitude consciente contra o esquecimento de certos fatos e visões que seus autores pretendem recuperar, apresentando novas facetas de acontecimentos históricos conhecidos. O mesmo se dá na Guiné-Bissau, onde os escritores, principalmente os romancistas, quebram com a tradição jogralesca de louvor aos chefes tribais, recusando-se a fazer eco aos encomiásticos discursos oficiais, ousando evocar outras realidades, emprestando a voz aos esquecidos ou conscientemente relegados ao limbo da não referência.”
(...)Apesar de todas as diferenças, as duas amostras literárias que constituem a base do presente estudo são analisadas sob um aspecto importante (mas não único), comum a ambas: representam uma literatura de vencidos, lançando mão da reconstituição da memória como base de um discurso denunciador, dirigido contra um discurso oficial e hegemônico diametralmente oposto.
O mito da democracia racial e a estratégia desenvolvida pelo discurso hegemônico brasileiro para defendê-la e divulgá-la são desmascarados de modo decisivo e emocional pelos autores afrobrasileiros. Na Guiné-Bissau, vai importar aos escritores criar, através da sua ficção, e em parte também da poesia, um contradiscurso que desmantele o ufanismo e a mitificação dos heróis da liberdade da pátria, dos quais o passado guineense está impregnado. Os autores aqui mencionados - Abdulai Sila e Filinto de Barros - relativizam, através da literatura, a versão oficial da gloriosa vitória contra as forças imperialistas estrangeiras por parte dos atuais dirigentes do país. Estes se consideram construtores da nação, os herdeiros do espírito da luta, os legatários do partido libertador e os continuadores da obra de Amílcar Cabral, reservando para si mesmos a encarnação e a afirmação da dignidade do povo guineense, a fundação da sua nacionalidade, a preservação da unidade nacional num país que se festeja como multicultural, multi-étnico e mesmo multirracial.
Devido ao fato de a Guiné-Bissau ter sido apenas uma fonte de fornecimento de escravos e de mercadorias para os exploradores portugueses praticamente até grande parte do século XIX, a sua ocupação e colonização sempre foram muito precárias e sente-se até hoje as conseqüências disso. No campo da literatura, por exemplo, só nos últimos vinte anos, isto é, depois da independência (1973), que se pode detectar um certo florescimento, ainda incipiente e modesto. O Brasil tem uma história muito diversa e o fato de ser independente há já cento e setenta e sete anos, em contraste com os vinte e seis anos de emancipação da Guiné-Bissau, dá-lhe uma outra maturidade, por exemplo no campo da literatura, mas não lhe apaga as cicatrizes resultantes da colonização e do escravismo. Embora em épocas diferentes e por meios diferentes, ambos os países libertaram-se do regime colonial português que deixou graves marcas por onde passou. No meu estudo, o que me vai sobretudo interessar serão os caminhos percorridos pelo instrumental literário como um fazer em função de um contra-discurso oposicional e emancipatório.(...)
segunda-feira, novembro 28, 2005
Literatura Guineense comparada
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A.Quade
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segunda-feira, novembro 28, 2005
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quinta-feira, novembro 24, 2005
n stali... n sta la
n sta li n sta la
sintidu nkotchadu
turbada di friu
kondjelan pitu
na tirina di sol
pitu forti badau
suma limon di tor
bokera nkurbadu
na pidi kopu di kana
kuma bedju di otranu
te tchuba di paranu
djambatutu kanta
kontrada di no kerensa
tok' i roku i kai moku
ma distinu nteres tatch
ndjita bedju bu bin nenin patch
00:05 17.01.05
Ndongle Akudeta
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Ndongle Akudeta
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quinta-feira, novembro 24, 2005
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N tene un sunhu

N tene un sunhu
kanfurbat pa bafa ku binhu
bo nghuninghuni...
ami dja n sta kontenti
paki n tene un sunhu...
n sunha terbesadu kuma
korson kamba mar
lungha labal ku si sukuma
tubaron dal buleia
disna ki tchiga djiu-di-reia
kudadi murtcha - ai i nor-nori!
na singadura di maron di l'bardadi
kin ku misti gera pa i bai tera
ku mundu misti padjiga sin bardadi
ami dja... ampus!
n tene un sunhu
Sonho contemplado
( adaptado do kriol)
a acompanhar com o vinho
na tasca do tagarelice
serve-se de mim em bandeja
para petiscos e gira-discos
eu por cá estou feliz
porque tenho um sonho
sonho avesso em diagonal
alma na travessia atlântica
banhada com a espuma da lua
naveguei no leque do tubarão
e o corpo jaz
no ilhéu d'areia
pensar amarfanhado
no divagar amorfo
na embriaguez das ondas do libertar
duelo esgrime-se
na arena da barbárie
nas praças lavra-se a verdade em série
e eu nesta cabana do pescador
na ternura do descanso na preia-mar
contemplo a fortuna emérita do sonhar
2003
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quinta-feira, novembro 24, 2005
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Na bu palmu di mon
de
Ndongle Akudeta
*
Na bu palmu di mon
Nha distinu skribidu
Na masan di bu orta
Serpenti sikidu na porta
Tris riu ku na lagua mansu
Pa bulanha di bu dedu
Nsomba-nsonbadu
Bemba di saudadi ku sikidu
Maron di Djiba ta badja tchintchin
Na tchikinidura di bu garasa
Na bu palmu di mon kaminhu
Singadura di seu ku tingi lundju
Strelas mansebu ta sai sardia
Na sara-noiba di lunga badjuda
Flur di lalu-kaminhu...
Na kada palmu kantiga di nha pasu
Kantu frontera dja ku n kamba
Djidiu ami i sidadon di mundu
Ora ku n na kanta bu nomi
Taibas tchapadu ku kordon di bu tadju
N ta toka dondon nuven nkanta
Ami i sidadon di mundu
Na kada tchalasiada di di noti
N ta furta sunhu di manduragada
09.07.05
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quinta-feira, novembro 24, 2005
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António Baticã Ferreira
Infância
Eu corria através dos bosques e das florestas
Eu corno o ruído vibrante de um bosque desvendado,
Eu via belos pássaros voando pelos campos
E parecia ser levado por seus cantos.
Subitamente, desviei os meus olhos
Para o alto mar e para os grandes celeiros
Cheios da colheita dos bravos camponeses
Que, terminando o dia, regressavam à noite entoando
Canções tradicionais das selvas africanas
Que lhes lembravam os ódios ardentes
Dos velhos. Subitamente, uma corça gritou
Fugindo na frente dos leões esfomeados.
Aos saltos, os leões perseguiram a corça
Derrubando as lianas e afugentando os pássaros.
A desgraçada atingiu a planície
E os dois reis breve a alcançaram.
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quinta-feira, novembro 24, 2005
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quarta-feira, novembro 23, 2005
SOFRIMENTOS
de
Carlos-Edmilson Vieira
A dor que em mim mora
não é o mal no meu corpo
carne destinada à terra húmida
última guardiã do sofrimento
pois esse já fiz oferenda
ao mais Homem de todos os Homens
mumificado pela injustiça humana
que estrangula o nosso ser
a dor que em mim mora
é a que vi em Bissau
é a que viveram na travessia para Dakar
é a que viveram na travessia para Cabo Verde
é a que vejo no corpo dos outros
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quarta-feira, novembro 23, 2005
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Cantos do meu País
*
Julião Soares Sousa
Canto as mãos que foram escravas
nas galéscorpos acorrentados a chicote
nas AméricasCanto cantos tristes
do meu país
cansado de esperar
a chuva que tarde a chegarCanto a Pátria
moribunda
que abandonou a luta
calou seus gritos
mas não domou suas esperanças Canto as horas
amargas
de silêncio profundo
cantos que vêm da raizde outro mundo
estes grilhões que ainda detém
a marcha do meu País.
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quarta-feira, novembro 23, 2005
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Hei-de fazer uma música

Francisco Conduto de Pina
Hei-de fazer uma música
Com melodia de todo o mundo
Instrumentalizada com homens
Homens de todo o mundo
Uma música folclórica
Com letra popular
A percussão feita de tumba
E uma voz diferente
Será música, será ária
Doce, que se ouvirá
Ao mesmo tempo
Em todo o mundo
Não será uma música de vaidade,
Mas melodia de uma canção humilde
Para embalar todos os homens
Hei-de fazer uma música
Com ajuda de todos os homens
Que sonham com o brilhar do sol
Neste mundo incerto!
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quarta-feira, novembro 23, 2005
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Etiquetas: Conduto de Pina, Guiné-Bissau, poesia
TONY TCHECA
A PROMETIDA
Dóli só
Djena sem ninguém
do romance inocente
a tragédia bacilenta
papá homem grande
se meteu
uma vaca
um saco de farinha
um tambor de cana
umas folhas de tabaco
a permuta
a prometida
três
dias
depois
da lua
com fome de amor
boca acre não come
com sede de ternura
garganta seca rejeita água
as lágrimas engrossam
e rolam
no rosto macilento
Djena dezassete chuvas
Djena uma vida por viver
Djena a prometida
Djena mulher de hoje
tem fome
não come
tem sede
não bebe
corpo de mulher
inerte como o silêncio
firme como a recusa
repousa intacta
num sono inviolável
(in "Vozes poéticas da lusofonia",Sintra, 1999)
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VASCO CABRAL
O Último Adeus Dum Combatente
Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangrarem de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.
Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só o teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade
Sim! foi por isso que eu parti e tu ficaste!
Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.
Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!
Vasco Cabral, A Luta é a Minha Primavera
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segunda-feira, novembro 21, 2005
No Museu do Coração

Estou encharcado
aqui neste pântano
condenado
ao afogamento
pelo destino fatal
coração dilacerado
em corte visceral
sonho distante
corpo separado
d'alma
não por vanglória
razão desfraldada
sorrio e no ar
ofusca-se o ébano
canto em voz alta
para testemunhar
o silêncio do rouxinol
no pinheiro
cheiro à náusea
de tanto palpitar
vou beber água
na fonte dos amores
em cada momento que
olhando ao espelho
te perco de vista
e o peito recarrega-se
da mancha da tua flecha
espetada certeira
à custa do fardo
que o fado ditou
no cerne da arvore
da paixão
no museu
do coração
mumificado
a minha alma
jaz em dinossauro
espero uma justa
encarnação
esfinge com tronco
de centauro
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domingo, novembro 20, 2005
Poterisa di Mandurgada

Apoteose
o futuro
do universo
está nas mãos
dos meus versos
ó Guiné
que te apresses
já não possuo suores
para lavrar
tantos louvores
para quê
tantas preces ...
bem no fundo
do coração
meditai
nesta oração:
» Mãe África
cheia de desgraças
maldita não sereis
entre as raças
»Cabral Nosso
que jaz no solo
a nós venha
o vosso consolo
»Pois em nós
reina a desolação
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sábado, novembro 19, 2005
ANSIEDADES

debruçado no ombro
de um verso amigo
a depositar o peso rotineiro
do existencial castigo
embriaguei-me
ao calor da áfrica
perfume cinza-rubro da guiné
contemplei o penteado do geba
beijando pindjiguiti deleitável
ondas batendo asas
no batente
do meu coração
vi brotar a paz nas alturas
andorinhas construindo
ninhos - com carinho
nas profundezas pacíficas do oceano
moldura musical de pombas
trombeteando
sinfonia de estrelas
no jazz pulaar
de kaabu que harmoniza
o balafong
do meu coração
melodia das cigarras –korá
no paraíso idílico da ostentação
divórcio
no canal de suez
bomba
anti-panafricanista
abominação
negro-genética
celeuma
do destino ocidental -
áfrica rainha
virgem desonrada!
ansiei a azeitona
preta do meu pomar
chabéu que me levava à cachéu
deixo flutuar no ar o chapéu
para testemunhar
às ondas do mar
à sombra do céu sem véu
o divórcio intestinal do poeta
que o tempo
fez réu
(Adão Quadé)
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Os BARULHOS DAS MÁQUINAS

Os barulhos das máquinas
ressoam nos meus ouvidos
abro os livros -
museus do caminho-de-ferro
martelam toda a vasta artéria -
páginas ainda não desfolhadas
predicados do movimento
retroescavadoras nas pedreiras
a cidade avança a pular
numa dança empolgante e pululante
e arrasta consigo
numa revolta do íman
as areias das aldeias
alavancas no leme motor do provir
hélice dos símbolos rodopia o moinho no porto
e as sereias se enlouquecem
loucamente pela atracção
das sardinhas com perfume
do dia laborioso
levantam-se diques -
muralha do tempo
crocodilos constróem lares nas dunas
mar a protestar a hegemonia
lança-se praias e as brisas abafam
o litoral em flancos laterais
com palavras lavradas em tom alado
duma harmoniosa plasticidade
do céu azul pincelado
com vapor fumegante
da réplica das eras
coração dessecado no panteão da liberdade
armas em palmas
Estrela negra vigilante
cores do brasão grua a descarregar charruas
mantas incolores estendidas no sol-pôr
refinaria das consciências
empilhadoras nas gráficas
imprime-se as memórias recicladas
e a aurora convalescente
da cegueira nacional
festeja com o sicó
o corte abissal do tempo
desgasto adormecido no antro ancestral
vigiado pela geração epiléptica

(14.06.2004)
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PESTICIDA
Há macacos velhos disfarçados em kankurang
Empoleirados no pé-de-mango-fernandinho
Na casa que viu a enterrar o meu bico de concha
Vi finados fazendo de fanados prostrados
Na batente da porta e na esteira onde eu me repouso
Estas movimentações precipitadas nas ruas da cidade
Não sei se alguém tombou no palácio de epidemia de dengue
E eu sinto-me isolado na morgue apaixonado por uma morta
Suicida-se diariamente por falácia da vida e cheiramos a sangue
(14.04.03)
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Ndongle Akudeta
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