sexta-feira, julho 14, 2006

Sorriso no escombro


Esperei ver-te assim como estiveste
esperei teu perfume para embebedar
este trémulo silvar de sobriedade
procurando o remédio para o calor
naquelas termas que valsava liberdade

Onde se banhava de sol ardente

Não resisti na verdade
à negrura com que enfeitavas sorridente
aquele virginal pau-carvão
esbranquiçado agora de tanto nevar
- afinal tu nasceste negra ai que pena!

Era morrer duas vezes e renascer
envolto nesta mão aconchegante
teu olhar até então guarda o segredo
nascente
de um sofrer angustiado

Sou feito estátua em cinzas
relvado do teu jardim
resvalado
pisa-me quando te apetecer
mas nunca deixe passar a primavera!

Procurei-te impaciente
perdi no vulto do teu penteado
afinal representavas a pureza
da candura de uma fatal ansiedade

No avalanche só a tua gengiva resistiu
ó ébano das ruínas de Kansala
ainda estás em pé e sedutora

dá consolo ao arqueólogo
semi-banto

teu chão ainda arde
debaixo dos meus pés
latejantes

teu sorriso de diamante
consumiu o marfim que enche
este favo de mel derramante

Sou o zangão a procura da colmeia
dá-me abrigo só para esta estação
neste teu olhar insuportável...

sorriso esplêndido sob ruínas intocável

26.05.2003
Homem de Oliveira Carvalho

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