quinta-feira, maio 11, 2006

Chapa-chapa

Conto


«Pa bu kunsi bu kabesa ika prisis
bai bota sorti na mon di muru
- Para conhecer-se a si mesmo
nao é preciso ir ao marabou
»
Manuel Pereira

«A nossa chapa-chapa é nossa manta que nos protege do frio» expressão esta que a N’na Pondu usava pra alicerçar a boa conduta da netinha orfã de quem ela cuidava desde aos sete anos de idade. A Banana cresceu a vender a sua consciência nos becos dos nossos bairros de ruas anónimas. A sua vida de «bidera» em nada interferiu nos seus estudos, aliás ela foi das alunas mais regulares quer pela presença quer pelo sucesso. Hoje a Banana é médica terapêutica pelo Hospital Nacional Simão Mendes, caminho este que trilhou com muito suor, determinação e dedicação.

O calendário assinalava vinte e um dias do mês de Abril e, no céu um sol abrasador de Quaresma quando se deu entrada nos serviços hospitalares de emergência à uma mulher esquelética que pelo preenchimento dos requisitos formais sabia-se que chamava–se Anura. E a espera afêteré que vestia mostrava as profundezas dos poços na parte superior das suas clavículas. Logo foi atendida pela enfermeira de serviço que a deu as primeiras medicações. Passados alguns dias os resultados dos diagnósticos rezavam que a Anura é seropositiva aliás é doente de sida. A esquelética mulher transferida de uma sala para outra onde veio a ocupar a cama número 29 de entre outras numa salada de pacientes.

A Banana ou melhor a doutora Éden nas suas visitas médicas matinais de rotina aos pacientes a dar novas medicações ou a saber de como estão sentindo os enfermos. Estava ela na cama número dois, quando ouviu uma voz meia morta e rouca a chamá-la – «Banana». Virou-se p’ra ela mas não a reconhecia – «Sou eu Anura» – «Anura!» – exclamou a doutora. – «O que é que você tem» – interrogou de seguida. – «Já há muito que estou doente, dizem que é problema com cerimónias de anda cabaz». A doutora ordenou-a esperar continuando distribuir os quininos e papéis de novas análises conforme o evoluir e as exigências de cada. Voltada à Anura ajustou os óculos cor d’oiro e sacou da portfólio o dossier dela. Dando um golpe de vista nas enfermas papeladas disse–a – «segue me», tomando a direcção à sua sala de consultas.

Uma vez na sua sala fitou tristemente na óssea amiga de infância e adolescência enfiada a sua frente numa cadeira, buscando palavras para eximir da já debilitada mente dela os mistos preconceitos tchon’almente.
A doutora ciente de que deve a amiga saber que doença contraiu e como portar com ela, começou assim – olha Anura o seu problema não é nada de anda cabaz ou de tchon e, é sério, – interrompeu o discurso para atender um telefonema vindo de uma das dependências do estabelecimento hospitalar. Retomou a conversa puxando a cadeira para perto da amiga e, segurou as palmas de mãos dela como que a dizer sinto muito. Fitou na amiga e disse–a meigamente
– Você está doente de sida. Mas não preocupe que eu tomo conta de você e, tudo vai correr bem se Deus nos ajudar.
– Tudo vai correr bem se Deus nos ajudar – repetiu a Anura cabisbaixa, dando uma pausa –Doutora! Não vês que já sou defunta – continuou ela.

De um dos armários a Dra. Éden puxou a gaveta de onde tirou um pacote de antiretrovirais que entregou-a explicando as instruções de como tomá-los.

Passados dias, semanas e a Anura contente pela forma carinhosa que vem sendo tratada pela companheira doutora achou que é dado retribuir dizendo pelo menos obrigada. Bateu a porta, pediu permissão, penetrou na arcondicionada sala e, encaixou-se na cadeira oposta a da doktor. E, no entanto a doente no lugar de obrigado começou com desculpas ou melhor com remorso de riram-se da amiga quando ainda adolescentes e companheiras de turma.

– Doutora, desculpe-me. Esta é a nossa sorte. E cada um tem a sua. A minha é esta.

Caros virtuais leitores, a nossa sorte tem um peso e uma medida. Em toda a nossa vida a nossa sorte tem metade de caneca que é cinquenta porcento e a outra metade depende de nós mesmos, mas tão-só de nós mesmos.

Sem ser interrompida pela doutora continuou a passada

– Lembras daquele tempo em que eu e a falecida Guta insistíamos para que fôssemos às Tiras Pratas, ao Ponta Neto, a Hatch M’bida no espectáculo do N’kasa, e você sempre recusava por não ter roupas de gala, e nem sequer aceitava tomar emprestada as minhas saias plissadas, ou o meu “mingón bico”. E que as monótonas desculpas suas foram sempre amanhã tenho um mar de afazeres e, ou a N’na está doente devo cuidar dela e, ou esquecem que amanhã temos chamada escrita ou oral. E nós sem estudar sempre apanhávamos boas notas, claro que da nossa maneira.
E até nós sugeríamos mostrar-lhe como facilmente fazer muito dinheiro e estar na moda.
Os mais porreiros gatos corriam atrás de mim e da Guta (que está no outro mundo) porque nós éramos as mais curtidas badjudas do Kwame Nkrumah.
Lembras do Maneli? Esteve em Lisa, foi deportado e agora o gajo futiu. Que sorte malvada? A vida dos gajos e badjudas curtidos virou ah!....
....Olha só em você como é que estás toda pomposa de gargantilhas e pulseiras doiradas. Olha só em mim, magra como cachorra doida e, esta afêteré que em mim pendura como se num cabide. Mas será que esta é a nossa sorte? Será que se eu não abandonasse o estudo no oitavo ano, seria esta a minha sorte?

A Dra Éden que passou minutos a fios abanando a cabeça em silenciosa concordância com o amistoso desabafo cortou o discurso da outrora pueril amiga.

– Anura! A nossa vida tem um só destino final e há múltiplos caminhos p’ra atingir o desejado. Você escolheu (não digo o mais fácil) o mais sinuoso e traidor atalho que te conduziu a um beco sem saída ou seja à uma ilusória felicidade. Eu escolhi podar, capinar, esgravatar, lançar sementes, mondar, vigiar e recolher. Por outras palavras eu escolhi o suor da minha testa p’ra o tempero da minha vida. Por outras palavras, você escolheu lançar pedras as mangas verdes impedindo que as flores frutifiquem.

A arrependida desatou a lacrimar. Aproveito da palavra de um escritor maior que eu, que disse chorar faz bem a alma. Mas, será que essas lágrimas é o real preço da desfrutada sabura?

Nada podemos fazer para voltar o tempo, mas tudo podemos fazer transmitindo esta estória aos nossos filhos, netos dizendo-lhes que a nossa vida é curta e cada segundo, minuto, hora, dias e anos deve ser vivida dentro daquilo que é a razão da nossa criação e existência.
FIM
Manuel Pedro Pereira, Jr.
(DJOMBOKILIN)
Moscovo, 23/12/2005

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bidera – vendedeira
espera afêteré – uma espécie de vestido de cortes simples
anda cabaz – cerimónia papel (etnia) na qual se leva à cabeça cabaça
tchon – chão; coisas de terra
mingón bico – sandália plástica de bico agudo nos meados de ano 80
sabura – luxo, alegria, sabor, saboroso/a, bonito/a (muzika sabi)

1 comentário:

Anónimo disse...

Testemunho de situações vividas têm um impacto muito mais forte do que frases feitas!
Ao autor desta mensagem, peço encarecidamente que a consiga fazer chegar ao ministro da educação, para que a inclua nos compêndios das nossas escolas, como mais um testemunho na ajuda da luta contra a sida, que parece “estar a passar ao lado” na nossa terra.
É uma chamada de atenção aos objectivos que a nossa juventude deve ter para a sua vida. As tentações fáceis e momentâneas nunca conduzem a bons resultados!!!
Emocionou-me.

Um abraço
Suzi