terça-feira, março 21, 2006

Dia Mundial da Poesia



Koichiro Matsuura*


A poesia ocupa, entre as diferentes formas de expressão humana, um lugar importante e particular. Seu estatuto de disciplina à parte da literatura é, por certo, reconhecido desde as origens. Os bardos dos tempos antigos exprimiam-se frequentemente por essa construção ritmada de palavras.

Mas a poesia é mais do que um género literário, rígido e codificado; ela é a base de todas as outras formas de expressão literária e artística. Não se diz de um romance, de um quadro, de uma composição musical, de um filme, que eles são poéticos?

A poesia é pouco exigente: uma voz ou uma folha de papel bastam para dar-lhe vida. Nós a encontramos em todos os tempos e em todos os lugares, prova de sua universalidade e de sua natureza transcendental.

Reconhece-se uma cultura por seus poetas porque eles conseguem dar forma concreta aos mais secretos de seus impulsos, aos mais íntimos de seus sonhos e de suas esperanças compartilhadas.

Mas a poesia é igualmente um meio incomparável para a compreensão intercultural. Seu aprendizado, desde a mais tenra idade, ajuda o indivíduo a formar sua sensibilidade, a aprofundar sua apreensão da complexidade do mundo, a compreender o outro por meio do refinamento da arte e a dar segurança aos seus passos no caminho da vida.

A UNESCO tem desenvolvido, desde a sua criação, um programa de tradução de obras poéticas do mundo inteiro a fim de torná-las acessíveis ao maior número de pessoas e de participar, assim, do diálogo e da compreensão internacionais.

Também por ocasião desta primeira celebração do Dia Mundial da Poesia, convido as autoridades públicas, as associações e a sociedade civil a mobilizar-se para que a poesia reencontre seu lugar tradicional na vida da comunidade e que ela prossiga em sua vocação universal de serviço à diversidade cultural e à paz no mundo.
Paris, 21 de Março de 2000
*Director Geral da UNESCO

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Uirtute

a vida é perfume sem cor
cheiro em ciúmes com o odor
construir alcácer na areia da praia
é sol de pouca dura

a primavera ainda não conseguiu vencer o inverno
estamos a alimentar o tubarão
na água onde nadamos

que um dia há-de nos engolir a todos

cá por este lado há harmonia
estou on-line nesta nave do transcendente
o espaço é espaçoso para negociar a paz
vê-se nesta nave cores de todo o mundo

a bola afinal é redonda por aparência
dá ânsia de poupar aqui urnas aqui atrás
onde pausadamente o corpo se jaz
fio da alma atada em nós de bamba apodrecida


sarampo no meio da neve é adiar o esquiar
e o inverno toma a textura da sua própria manta
arrepia o sol a lua acende a lanterna
vagueia na nuvem rebanho de carneiros


àquela escada equinocial ares amotinados
regressam alegremente enlutados de branco
da fúnebre missa do tempo sepultado sem campa

evocamos o requiem ao repouso dos infiéis
pois abastados os famintos - farinha do mesmo saco
cabemos todos na arca da despersonalização
absorvida em alameda de flores ...

tenho agora uma nova atitude para com a comunidade
um recipiente onde não cabem todas as virtudes
sou rebelde não por natureza mas ante a vaidade da sociedade
carrego a bandeira com cores contra tudo
até à lassitude que opera nas entranhas da juventude


Adão Quadé
3:25 20-02-2003

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