quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Si nô bim matil, mansin amanhã!


De manhã muito cedo as famílias põem-se de pé, acabam os preparativos para rapidamente entrarem nos abrigos de fortuna, comummente designados de bunquers no jargão de bissauzinho. Lá vamos todos, com lamergas nos olhos mal abertos, antes que bombas sem olhos façam perigar a vida de mais um ente querido nosso.

Mata-bicho e outras coisas fazem-se é nos abrigos. Neste momento faz frio em Bissau, o que torna ainda mais penoso o sacrifício matinal das pessoas, nomeadamente das crianças.
Mal as pessoas chegam aos abrigos, começam a soar os primeiros arrebentamentos e caem as primeiras bombas da morte. Aí vão mais bombas da katchusha para lá. Aqui morreram muitas pessoas e muitas casas ficaram danificadas. Morreram muitos senegaleses, novamente.
Mas também muitos civis, a maior parte dos quais eram jovens. Considerando a intensidade e a violência do fogo deste lado, julgo que muitas pessoas também morreram no outro lado da trincheira.

Certamente que perdemos muitos valorosos combatentes, apanhados pela surpresa dos ataques. Digo pela surpresa de ataques porque foi o que se depreende da entrevista de um membro da Junta capturada pelas forças leais a Nino Vieira. Ele - o combatente apanhado - estava a fazer as suas preces pela manhã cedo quando um grupo de assalto o capturou. Isto quer dizer que eles não esperavam um tal ataque.

O povo continua a viver como toupeira. Os jovens são mais descuidados, por isso morrem mais. As mulheres parecem mais inteligentes. Entre duas bombas, como em tempo normal, é ta pui kaleron, ou midi sal e ainda cuidam das crianças.

É a minha primeira guerra, mas nunca fui a um Bunker. Aproveito desta pausa profissional para acabar um livro sobre o mercado de Bandim. Mas, estou funcionando como um autêntico general civil. Tenho comigo os filhos das minhas irmãs Anabela e Samira e os do Rachide Saiegh. Ao mesmo tempo fazemos rondas no Bairro para evitar roubos, mas também para socorrer casas ou pessoas atingidas pelas bombas. A nossa presença é muito dissuasiva, mesmo em relação a tentativas de violação de direitos humanos. Desde que os confrontos recomeçaram encontramo-nos sempre na esquina da BBC com Fernando Gomes, Inácio Tavares e Valdomar. Ontem apareceu o Adalberto Rosa. Que futuro para a Guiné era o ponto central das discussões.

O que é que se passa com Zamora, nunca mais falou desde as primeiras horas de combate? Estou preocupado, sobretudo depois da entrevista do Fadul que falava de tiros surpreendentemente certeiros e de feridos. A Guiné não pode perder mais um valoroso quadro militar.
Mas os tiros que chegavam do outro lado eram igualmente certeiros. Fala-se que duas bombas teriam atingido o palácio presidencial. Não sei se é verdade. Parece também que muitas bombas caíram em certos aquartelamentos senegaleses improvisados como no INEP e no INDE. O Jornal Kankan disse que um T 52 foi destruído junto à Aldeia SOS. Outros dizem que um outro Tanque da Guiné Conakry teria sido destruído nas zonas de Luanda. Mas na rádio nacional alguns locutores continuam a dizer que as forças leais progrediam irreversivelmente no terreno, arrasando tudo no seu caminho. As nossas forças já tomaram Polon de Brá. Será verdade ou os nossos jornalistas já aprenderam a falar como os seus homólogos senegaleses que durante meses diziam a mesma coisa e que já se encontravam a caminho do Aeroporto? Mas como poderão estar a falar de Brá conquistado se a Rádio Voz d Junta Militar continua a emitir?

A feira de Cuntum recebeu vários obuses. O laboratório Nacional de Análises sito no Hospital 3 de Agosto ardeu completamente.
O meu primo Artur Silva chamou-me ao telefone recomendando muita cautela. De repente ouço um estrondo e a linha foi abaixo. Afinal tinha caído uma bomba na casa do seu colega Brandão Có, ex-Ministro da saúde.
Acabo de falar na rádio nacional onde dirigi um vibrante apelo a Nino Vieira e a Ansumane Mané, mas também ao meu primo Veríssimo Seabra para cessarem imediatamente as hostilidades, em nome dos interesses supremos do povo por quem eles todos reclamam lutar. É hediondo o que acontece na comunicação social. Os locutores perderam a faculdade de pensar. As mensagens veiculadas são ainda mais monstruosas do que as bombas. Nô na mata elis tudo. Os bandidos devem ser completamente aniquilados. Novamente, ouve-se empunhar a arma do inimigo, do anós ku bali e de elis ku ka bali. As mensagens são de tal forma acesas que por vezes perco a esperança numa eventual reconciliação nacional. O outro é um inimigo. É um animal feroz e altamente perigoso.
Hoje a luta é verdadeiramente mortal porque apesar de já se fazer muito tarde, os bombardeios continuam. Segundo a Rádio Nacional, as tropas fiéis estavam em Brá a caminho do Aeroporto. Segundo a Rádio Voz da Junta Militar, brevemente os combatentes estariam nas portas de Bandim. Quanto a mim, cada um está onde eu os tinha visto no dia 30 de Fevereiro, salvo aqueles que tombaram quer nas frentes quer nas cassadias de Bissau. Os claqueiros também continuam uns na Bancada de Pilum, outros nas redondezas de Chão de Papel. E o povo? Este continua sem paz, com fome e com horizontes muito perto do seu totis.
Si nô bim matil, mansin amanhã.

Bissau, 2 de Fevereiro de 1999

H.M.

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