quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Diário de um pacificador

31-01-99:Crónicas de uma hecatambe adiada


Quero com isso simplesmente aproveitar, deste diário de um guineense,o teor literarário, sem contudo deixar de lado o remorso e a dor profunda que este acontecimento marcou a todos os filhos e amigos da pátria que se sentiram lesados na pele. Podemos nos servir disso como matéria para reflexão sobre o quão hediondo é a delaceração do laço de fraternidade que une um povo, para com isso tecermos fortes nós para amararmos a forquilha da nação.
Djambadon reteira, desde já, os gestos das suas sentida desculpa às personalidades que se sentirem ofendidas por esta ingénua memória de sublinhar as marcas de uma cronologia vivenciada.
Na paz e na harmoniosa guinedade!
Ndongle Akudeta
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Crónica I

Paz e retirada imediata de tropas estrangeiras

Algumas bombas produzem o som estridente de um colossal armário metálico em movimento. Outras silvam como a sirene dos bombeiros. Há também outras que nem barulhos fazem. Mas todas são altamente mortais. A guerra voltou a Bissau com estes engenhos, talvez dos poucos que nós sabemos manejar com destreza.

As populações continuam a fugir em todas as direcções. As balas chovem igualmente em todas as direcções. O discurso dos fazedores de guerra orienta nos mesmos azimutes contraditórios.

Na rádio nacional aconselham os populares a não abandonarem as suas casas, que guardem a calma e que se abriguem como puderem. A rádio da Junta Militar repete sem cessar apelos ao abandono da cidade, considerando a capacidade de destruição das armas com que planejam ripostar aos ataques das forças leais.

Voltamos a ver feridos, mortos, casas e infra-estruturas destruídas. Estou coleccionando estilhaços daqui da minha calma rua 10. Há muito sofrimento. Há muitos feridos e mortos nos hospitais. Não há nem álcool, nem pensos. Não há nada. Só sofrimento e a odiosa linguagem das armas.

As partes acusam-se mutuamente de ter iniciado a guerra. Segundo a rádio nacional as tropas estrangeiras estariam a levar a melhor, aliás a aniquilar os nossos combatentes. Eles, os locutores, falam como se estivessem relatando um jogo de futebol: "é preciso destruir tudo, tudo mesmo. Já sabemos onde eles se encontram, esses bandidos, arrogantes da Junta Militar. Brigadeiro Humberto Gomes, por favor, utiliza todas armas para bombardear. Camarada João Bernardo Vieira, tu já não tens nada a ver com isto. Deixa os militares fazerem o seu trabalho. Lancem mais bombas. Lancem mesmo aquela bomba que o Nino nunca quis que usassem".

Não se ouve muito bem, ou quase nada a rádio Voz da Junta Militar, por causa das fortes interferências programadas pelo governo. Neste momento só se ouve a rádio nacional, com Bernabé Gomes, Chico Carruca e Carlos Nhafé. E a mensagem é a mesma de sempre.

Meu Deus, será que se trata de uma guerra entre nacionais? Não acredito. Há muitas vítimas. E todos só falam em continuar os bombardeamentos massivos.
Até que começou um programa animado pelo jornalista Mendonça. Fala brando … mensagem conciliadora e distância para com as partes em conflito. Era a República que falava. A nossa República da nossa pátria amada. Não aquela conspurcada por botas suruas.

Na sequência disso, um jovem médico, Plácido Cardoso lastimava a carnificina em que o país se envolveu e pede aos beligerantes para pararem imediatamente os combates. Depois seguiram-se outras vozes. Não tardaram porém a serem sufocadas por desígnios tenebrosos. Dr. Plácido estava a chorar. Caíram três bombas dentro do Hospital. Na enfermaria e no bloco operatório. Ele chora e ameaça refugiar-se também, já que as bombas começam a cair no seu local de trabalho.

Oh mundo. Oh Nações Unidas. Oh amigo da Guiné. Caro irmão... isto é uma hecatombe. Ajuda a Guiné-Bissau. Fala..., grita..., mobiliza a tua volta, aqueles que decidem mais do que nós, para por termo a essa absurda guerra.
Lembrei-me daquela cantiga: montiaduris ku ka kunsidu é lanta é na fuguia pubis.Ou então esta outra: Terra na tchora pena di si fidjus ku bindi sé kabeça. Fidjus mofinu ku ka sibi nada, ké ku na bim passa té pa sol na mansi.
Fazes falta, Zé. Tu tinhas que estar entre nós para consagrares em cantos esta epopeia negra.

Muitas vozes falam da presença de franceses: mercenários, legião estrangeira? Ninguém sabe. Mas desde que o padre falou, deixamos de ouvir o som ensurdecedor do seu estrondo.

A verdade é que enquanto os senegaleses não deixarem o nosso país não teremos paz. Que façam as suas mochilas e partam da nossa pátria martirizada. Que nos deixem resolver os nossos problemas, sozinhos.
Você que me lê, seja mais um "step flow" para a retransmissão mundial desta mensagem de paz.

Bissau,1 de Fevereiro de 1999
H M

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