segunda-feira, novembro 28, 2005

Literatura Guineense comparada


Por:Moema Perente Augel
Universität Bielefeld

Lembrança e olvido nas literaturas afrobrasileira e guineense


"(...) A recente literatura afrobrasileira resgata a realidade histórica ligada ao processo da escravidão e suas conseqüências, reinterpreta o passado, numa atitude consciente contra o esquecimento de certos fatos e visões que seus autores pretendem recuperar, apresentando novas facetas de acontecimentos históricos conhecidos. O mesmo se dá na Guiné-Bissau, onde os escritores, principalmente os romancistas, quebram com a tradição jogralesca de louvor aos chefes tribais, recusando-se a fazer eco aos encomiásticos discursos oficiais, ousando evocar outras realidades, emprestando a voz aos esquecidos ou conscientemente relegados ao limbo da não referência.”


(...)Apesar de todas as diferenças, as duas amostras literárias que constituem a base do presente estudo são analisadas sob um aspecto importante (mas não único), comum a ambas: representam uma literatura de vencidos, lançando mão da reconstituição da memória como base de um discurso denunciador, dirigido contra um discurso oficial e hegemônico diametralmente oposto.
O mito da democracia racial e a estratégia desenvolvida pelo discurso hegemônico brasileiro para defendê-la e divulgá-la são desmascarados de modo decisivo e emocional pelos autores afrobrasileiros. Na Guiné-Bissau, vai importar aos escritores criar, através da sua ficção, e em parte também da poesia, um contradiscurso que desmantele o ufanismo e a mitificação dos heróis da liberdade da pátria, dos quais o passado guineense está impregnado. Os autores aqui mencionados - Abdulai Sila e Filinto de Barros - relativizam, através da literatura, a versão oficial da gloriosa vitória contra as forças imperialistas estrangeiras por parte dos atuais dirigentes do país. Estes se consideram construtores da nação, os herdeiros do espírito da luta, os legatários do partido libertador e os continuadores da obra de Amílcar Cabral, reservando para si mesmos a encarnação e a afirmação da dignidade do povo guineense, a fundação da sua nacionalidade, a preservação da unidade nacional num país que se festeja como multicultural, multi-étnico e mesmo multirracial.
Devido ao fato de a Guiné-Bissau ter sido apenas uma fonte de fornecimento de escravos e de mercadorias para os exploradores portugueses praticamente até grande parte do século XIX, a sua ocupação e colonização sempre foram muito precárias e sente-se até hoje as conseqüências disso. No campo da literatura, por exemplo, só nos últimos vinte anos, isto é, depois da independência (1973), que se pode detectar um certo florescimento, ainda incipiente e modesto. O Brasil tem uma história muito diversa e o fato de ser independente há já cento e setenta e sete anos, em contraste com os vinte e seis anos de emancipação da Guiné-Bissau, dá-lhe uma outra maturidade, por exemplo no campo da literatura, mas não lhe apaga as cicatrizes resultantes da colonização e do escravismo. Embora em épocas diferentes e por meios diferentes, ambos os países libertaram-se do regime colonial português que deixou graves marcas por onde passou. No meu estudo, o que me vai sobretudo interessar serão os caminhos percorridos pelo instrumental literário como um fazer em função de um contra-discurso oposicional e emancipatório.(...)

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